Antigo & Moderno

Uma fotografia salva pelo DxO: talvez não acreditem, mas o vermelho era quase roxo antes da edição
Há alguma coisa de antiquado nesta fotografia?

As fotografias feitas a partir de negativos têm um aspecto antiquado? A pergunta parece-me pertinente, mesmo se uma resposta positiva pode parecer óbvia para muitos, uma vez que quem não desenvolveu a apreciação da fotografia na época de ouro da fotografia convencional tende, pelo que vejo, a desenvolver ideias feitas sobre qual a aparência das fotografias gravadas em rolos. A julgar pela imensidão de fotografias processadas no Instagram com efeitos de «fotografia antiga», fico com a impressão que a percepção dos muito jovens (*) daquelas fotografias corresponde a um par de estereótipos: fotografias desfocadas, a preto-e-branco ou sépia, cheias de manchas e de um grão grosseiro e com uma nitidez extremamente deficiente. (As fotografias a cores, de acordo com estes preconceitos, têm tons desbotados e matizes irrealísticas, para além de um aspecto datado.)

É também possível que os nascidos na era do CD imaginem que a música reproduzida num disco de vinil soe sem corpo, abrasiva e cheia de ruído, como o estereótipo do som das grafonolas, ou encorpado e com graves borratados, preconceito que o Linn LP12 ajudou a consolidar.

É possível que, para muitos, a memória visual (ou aural, já que mencionei o vinil) seja de tal maneira longínqua que não se recordem de como eram as fotografias de há duas ou três décadas; do mesmo modo, o facto de o digital ter prevalecido leva a que as pessoas o tomem como um padrão universal de qualidade, na presunção de que todo o progresso é por natureza benéfico. Os mais jovens, esses, não têm memória do que não viveram, tal como eu não posso dizer que tenha tido contacto com daguerreótipos.

Dito isto, será que estas preconcepções são verdadeiras? A minha resposta é um não rotundo e peremptório.

As fotografias que tenho vindo a fazer mais recentemente não têm nada de antiquado. São fotografias em que os aspectos essenciais da aparência da imagem são completamente modernos. A nitidez é, penso eu, tão boa como o melhor que se faz hoje. Se usasse lentes Leica ou Zeiss ainda seriam mais nítidas, mas tal como são não me parece serem merecedoras de reparos. Não é o tipo de nitidez que se vê em certos lugares, com exageros de unsharp mask que, de tão evidentes, tornam a fotografia quase irreal, mas é uma nitidez correcta e absolutamente moderna.

O mesmo quanto às cores – pelo menos sempre que uso o Kodak Portra 160. Não me parece que as minhas fotografias tenham um ar datado, e muito menos que as suas cores sejam dessaturadas como nos postais dos anos 60. Neste aspecto, a saturação e a vibração das cores não difere em nada da fotografia digital – a não ser num aspecto importante: é que muita da qualidade da cor das fotografias digitais é obtida através do processamento da imagem, com a manipulação da curva de tons e jogando com o equilíbrio dos brancos. E mesmo assim estas cores digitais não se comparam, em naturalidade, com aquelas que um bom rolo como o Portra 160 é capaz.

Já que fiz a analogia com o vinil, devo dizer que o som do meu Rega Planar 3 com a fabulosa Ortofon 2M Blue também não tem nada de anacrónico: pelo contrário, o meu gira-discos come leitores de CD (para não ter de me referir a leitores MP3) ao pequeno-almoço. O som é muito mais dinâmico e tridimensional do que o da música gravada em suportes digitais. Nada que se pareça com grafonolas ou consolas dos anos 50.

Seria bom, deste modo, que as pessoas tirassem da cabeça a ideia de que as fotografias feitas a partir de negativos têm um ar antiquado. Não têm. Pelo menos as minhas não têm. Já agora, se não fosse pedir muito, podiam também parar de fazer caricaturas de fotografias antigas com o Instagram. A fotografia convencional tem os seus limites – seria estultícia não o reconhecer –, mas tal não significa que produza necessariamente bordas queimadas e um ar esbatido e granuloso.

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(*) Nem todos: a quantidade de jovens que enxameia as lojas dedicadas à fotografia convencional ao Sábado de tarde é mais um facto susceptível de derrubar muitas ideias feitas. Nem toda a gente que usa rolos pertence à categoria dos cotas.

M. V. M.

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