Grão e ruído (outra vez, mas agora com ênfase na fotografia digital)

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Muito trabalho, pouco tempo e disposição para escrever. Passei o dia a fazê-lo, versando o tema interessantíssimo dos créditos laborais devidos a um trabalhador por uma empresa na sequência de um despedimento sem justa causa (se estivesse do lado do trabalhador as coisas seriam mais interessantes e divertidas, mas, hélas, não é o caso) e agora estou cansado e sem imaginação para escrever no Número f/.

A única coisa em que consigo pensar hoje, quando me forço a discorrer sobre o tema da fotografia, é nas fotografias que fiz com o Tri-X e no seu grão – e, sobretudo, na comparação deste último com o ruído das fotografias digitais. A única semelhança possível está no facto de ambos serem artefactos que divergem da percepção que temos dos objectos – nós não vemos as coisas com grão nem com ruído, a menos que sejamos um caso oftalmológico muito grave –, porque de resto não há qualquer identidade entre o grão de uma fotografia feita a partir de um negativo 400 ASA e o ruído de uma fotografia digital feita com a sensibilidade ISO fixada em 400. O grão confere textura à imagem; dá-lhe uma sofisticação e um ambiente que evocam imediatamente a história gloriosa da fotografia dos meados do Século XX (especialmente das décadas de 60 e 70); o ruído, esse, não passa de uma aberração que deve ser evitada a todo o custo, sob pena de destruir por completo o prazer de contemplar uma fotografia. Especialmente se esta for a cores: ver uma profusão de minúsculos pontos verdes, vermelhos e azuis atacando porções da imagem não evoca nada a não ser um sensor deficiente, fruto de um progresso tecnológico que esqueceu de cuidar o importante em detrimento de aspectos que não têm qualquer valor visual, artístico ou estético. O ruído é, deste modo, uma aberração.

O meu conselho, para evitar que esta aberração interfira com a qualidade das vossas fotografias – para além, obviamente, da recomendação básica de fotografar com o valor ISO mais baixo possível –, é este: nunca fotografem em formato JPEG. O processador da câmara vai piorar a imagem. Vai transformar os motivos em objectos que parecem ser feitos de cera. Vai destruir os contornos dos motivos e prejudicar irremediavelmente a definição. Há fotografias em que manter um pouco de ruído é preferível ao processamento da câmara. Fotografem em Raw e usem um bom programa de edição de imagem.

De pouco me interessa que programa escolherem. O Lightroom 5 é competente a reduzir o ruído – tanto quanto sei, bem mais que a versão 4 que experimentei –, o DxO Optics, que vai agora na versão 9, tem uma opção de redução do ruído denominada Prime que faz maravilhas, e o Capture One cria a ilusão de que a imagem não tinha afinal ruído nenhum. Qualquer destes programas – e há com certeza outros tão bons ou melhores que estes, mas apenas posso mencionar os que experimentei – faz um trabalho melhor que o processador da câmara quando se fotografa no formato JPEG com a redução do ruído ligada. Se têm mesmo de fotografar JPEGs, desliguem a redução do ruído ou fixem-na no nível mais suave, caso contrário os resultados são demasiado agressivos. Não posso recomendar-vos que regressem aos rolos, porque sei que muitos preferem a rapidez, comodidade e sentido prático que vos levou a fotografar exclusivamente digital. E eu compreendo e respeito essa opção – eu que também fotografo digital, embora cada vez menos. Façam este favor a vós mesmos e às vossas fotografias: fotografem Raw e usem um bom programa de edição da imagem para reduzir o ruído. Este é completamente indesejável: só estraga. Ao contrário do grão.

M. V. M.

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1 thought on “Grão e ruído (outra vez, mas agora com ênfase na fotografia digital)”

  1. Sensato conselho o de fotografar sem redução de ruído. Eu escolho sempre o formato jpg, raramente utilizo o RAW (falta de tempo e paciência para converter as imagens), em boa parte porque me parece que a olympus (no meu caso com a epl1) faz um bom trabalho de conversão. A não ser que use a redução de ruído. Quando comecei a utilizar esta máquina tirei algumas fotografias que me deixaram à beira de a devolver, por causa da qualidade das imagens. Depois desliguei a redução de ruído e esses problemas desapareceram por completo. A melhor solução para evitar ruído é mesmo utilizar valores ISO baixo (no meu caso, mais do que 800, já é abusar da sorte…)

    Vou ter que ponderar a continuação dos meus comentários neste blog, agora que tomei conhecimento que o autor destes textos se coloca ao lado do capital na opressão dos trabalhadores :)

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