Velocidade e tempos de exposição nas câmaras convencionais

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Para além de ter ficado a perceber a razão por que fotógrafos como Sebastião Salgado usam o Kodak Tri-X, houve mais uma lição que aprendi na minha experiência com este rolo. Quando o comprei, inseri-o de imediato na câmara e comecei a fotografar logo de seguida. Com a pressa de experimentar esta lenda da fotografia que é o Tri-X, esqueci-me por completo de proceder a uma operação importante quando se mudam rolos: alterar a velocidade ASA na câmara. Nas câmaras de rolo há um comando manual para o fazer: a câmara não adivinha qual a velocidade do rolo que foi instalado e necessita, para que o fotómetro forneça informação correcta, de ser ajustada para determinada velocidade. No caso da OM, esta operação executa-se puxando o botão da compensação da exposição para cima e rodando-o até a velocidade pretendida surgir numa pequena janela recortada no topo do comando.

O que eu não fiz. Tinha acabado de expor um rolo ASA 160, pelo que estive a expor um rolo ASA 400 com a câmara preparada para ASA 160. 1,3 EVs a menos do que o rolo requeria. Felizmente apercebi-me do facto após quatro ou cinco exposições, mas imaginei que as primeiras imagens tivessem ficado arruinadas. Esta experiência, contudo, mostrou-me que o Tri-X tem latitude suficiente para suportar valores ASA inferiores ao requerido e, felizmente, não se produziram grandes danos.

Que acontece quando o valor ASA do filme não coincide com o da câmara?, perguntam muito pertinentemente os leitores. Ao seleccionar o valor ASA, estamos a dar ao fotómetro a indicação de que aquele rolo é de uma determinada velocidade e a exposição vai ser ajustada em conformidade, tal como acontece com os sensores digitais. Um rolo mais lento requer tempos de exposição maiores e vice-versa. Ora bem, no meu caso o fotómetro, enganado pela regulação errada da câmara, determinou tempos de exposição mais longos que o necessário, o que significa que o rolo captou mais luz do que devia. Em consequência, as imagens ficaram um pouco sobreexpostas. Note-se, porém, que apesar de a diferença entre 160 e 400 parecer grande em termos puramente aritméticos, a verdade é que a diferença, em termos práticos, é de 1,3 EVs, o que não é muito e pode ser facilmente corrigido. No meu caso, com um valor ASA inferior ao do filme, a exposição daqueles quatro ou cinco fotogramas foi um pouco mais longa do que o rolo requeria. Se tivesse sido o oposto, i. e. seleccionando uma velocidade ASA superior ao do filme, os tempos de exposição seriam mais curtos, o que provocaria subexposição.

Ao que julgo saber, diferenças como estas não são muito importantes. O que quer que haja de desvio na exposição pode ser facilmente corrigido na revelação. Se o utilizador do rolo optar pela digitalização, também não é nada que não possa ser corrigido mesmo pelo programa mais básico de edição de imagem. Até o Windows Live Photo Gallery o faz com bons resultados. No meu caso, que tive de usar este programa rudimentar porque por qualquer motivo o DxO não abriu os ficheiros, bastou baixar um pouco o brilho para que as fotografias ficassem com uma exposição normal. Houve mesmo uma delas em que não precisei de fazer nada porque, mesmo com 1,3 EVs a menos, a imagem ficou perfeita.

Apesar desta limitação dos danos, houve uma fotografia que, embora não tivesse ficado nada má, podia ter ficado ainda melhor. É que esta fotografia em particular foi feita dentro de casa, em condições de luz escassa e com um tempo de exposição algo longo. Se a velocidade ASA seleccionada na câmara fosse a correcta, possivelmente não se teria verificado a ligeiríssima distorção por arrastamento que afectou a fotografia. Foi pena, mas curiosamente a fotografia resultou bem. Há casos em que é mais importante fazer a fotografia do que ter preocupações com a técnica, e este foi um deles.

Isto também me fez pensar no seguinte: há quem entenda que pode jogar com a sensibilidade ASA seleccionada na câmara como se estivesse a regular o valor ISO numa câmara digital. Na minha modesta – e, admitidamente, ainda pouco fundamentada nestas questões da fotografia convencional – opinião, penso que este modo de proceder, a menos que se saiba exactamente o que se está a fazer, é errado. Esta manipulação da velocidade é algo que deve ser deixado para a revelação, na qual se pode puxar pela velocidade do filme. Usar o valor ASA da câmara como se se estivesse a regular o ISO de um sensor apenas leva à obtenção de imagens incorrectamente expostas. No meu caso não foi grave, mas se for um rolo 100 ASA e se escolher uma velocidade 1600 – ou, pior ainda, na hipótese inversa –, poderá não ser possível recuperar a fotografia. De resto, escolher uma boa exposição numa câmara convencional já é suficientemente difícil. Não vejo necessidade de adicionar um factor de complicação.

M. V. M.

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