A minha decisão (antecedida de um longo prolegómeno de que o leitor está dispensado, podendo saltar directamente para o segundo parágrafo)

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O pior que alguém pode fazer, seja em que aspecto da vida for, é construir barreiras como os preconceitos. Eu gostava de ter uma visão tão clara das coisas que pudesse olhar todas elas de forma axiologicamente neutra, sem lhes apor juízos de valor prévios. As coisas são o que são, e é assim que devemos encará-las. Só depois de as conhecermos e desse conhecimento derivarmos todas as suas implicações e consequências é que devemos formular juízos de valor nos quais baseemos as nossas decisões. Decidir que uma coisa é boa ou má sem a conhecer, apondo-lhe os nossos pré-conceitos, é uma atitude eminentemente estulta, pelo menos se a virmos na sua forma pura. Porque, mesmo que não o façamos conscientemente, vemos sempre as coisas através da nossa razão, que foi construída a partir de valores que fomos adquirindo ao longo da vida através da educação, do meio e da nossa própria experiência vital. Esta razão está impregnada dos princípios e juízos apriorísticos que assimilámos, construindo o nosso próprio sistema de valores, dos quais não nos conseguimos livrar; e, mesmo que consigamos fazê-lo – o que nunca terá um êxito completo –, as nossas conclusões ficarão desligadas do real – do nosso real, integrando-se no plano dos conceitos abstractos. Um homem que tenha nascido e crescido num meio homofóbico nunca aceitará a homossexualidade, um outro que tenha crescido numa família que cultiva a anomia nunca verá qualquer sentido no cumprimento de regras e deveres. Um terceiro, nado e criado num meio religioso, nunca compreenderá ou aceitará a libertinagem, e uma pessoa reprimida nunca desenvolverá relações humanas saudáveis por causa dos obstáculos que involuntária e inconscientemente levantou à convivência com os outros. Todos eles podem especular sobre a razão de existirem pessoas e comportamentos diferentes dos seus e, eventualmente, convencerem-se de que os seus juízos apriorísticos estão errados, mas dificilmente mudarão as suas formas de ver, de pensar e de agir. Haverá sempre um pré-juízo a inquinar a sua percepção da realidade. O que percebem, nos seus raciocínios, é tão distante do seu modo de agir que não passará de especulações.

Não, este não é mais um texto fora do tema. Apercebo-me agora de como estava errado ao tentar manter o que faço com as minhas câmaras em domínios separados: a E-P1 serviria para fotografar no domínio digital, fazendo uso do Raw e do processamento da imagem, e a OM-2 manter-se-ia estritamente no domínio convencional, sendo o destino dos negativos a revelação e a impressão. Ao fazer isto, porém, estava a incorrer em diversos erros. Por exemplo, ao seleccionar um número limitado de fotogramas para impressão, estava na prática a deitar fora todas as restantes fotografias do rolo. Claro que tenho todos os negativos que expus, mas seria um comportamento bizarro estar a levar estes à Câmaras & Companhia e pedir que me imprimissem este ou aquele fotograma já depois de ter encomendado a revelação e a impressão.

Outro erro foi ter incorrido no preconceito de manter uma pretensa pureza da fotografia convencional ao mantê-la afastada da digitalização e do processamento da imagem. Com isto estava a assumir que as fotografias feitas a partir de rolos de 35mm eram perfeitas, mas não são. Ou melhor: nem sempre são. Podem ser melhoradas, e seria uma estultícia renunciar a esse melhoramento – sobretudo tendo um programa de edição tão poderoso como o DxO Optics. Editar um ficheiro TIFF obtido a partir da digitalização do negativo é quase tão versátil como editar um ficheiro Raw digital e as digitalizações que encomendo são muito boas: os poucos defeitos que possam ter são facilmente corrigidos na edição.

A minha opção pela fotografia com rolo de 35mm é definitiva. O prazer que extraio de fotografar deste modo é tão grande que a minha E-P1, coitadinha, está a hibernar há quase um mês. Para tirar o melhor partido dos rolos que vou usando, concluí que o caminho a seguir é mesmo a digitalização dos negativos (sem prejuízo da possibilidade de encomendar impressões das fotografias mais relevantes de cada rolo) e o uso da edição de imagem para melhorar as fotografias. A edição, que nunca é manipulativa, pode consistir em retoques ligeiros para melhorar a exposição ou nivelar a imagem, ou pode ir ao ponto de dar a imagem o aspecto que ela teria se tivesse usado um rolo diferente, mas qual é o problema? Onde está a barreira ética que me impede de o fazer, se a fotografia fica melhor? É preferível uma fotografia puramente convencional de qualidade sofrível ou uma fotografia melhorada pela edição? Esta última questão nunca me deveria ter levantado dúvidas.

Ao editar fotogramas digitalizados no formato TIFF, tenho o melhor dos dois mundos, como referiu um comentador do Número f/ há algumas semanas: alio o prazer de fotografar com rolo de 35mm às vantagens inequívocas do digital. É o que os anglo-saxónicos chamam a win-win situation. Ainda bem que só levei quatro meses a descobri-lo e a livrar-me das ideias preconcebidas.

M. V. M.

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4 thoughts on “A minha decisão (antecedida de um longo prolegómeno de que o leitor está dispensado, podendo saltar directamente para o segundo parágrafo)”

  1. Parece-me uma decisão sensata, que espero seja minha também um dia destes. Por enquanto, vou-me ficando pelo estritamente digital. Mas o bichinho dos rolos continua a fazer comichão :)

  2. sorry MVM dum ponto de vista pragmático não consigo entender o circuito: compra rolo, mete rolo, tira fotos, retira rolo, leva rolo à loja, revela rolo e digitaliza, vem para casa, pega no CD, poe o CD no computador, mete as fotos no programa de edição, edita as fotos…

    são demasiados passos!!! fica demasiado caro! consome muito tempo!!! :)

    faz-me lembrar esta anedota do Seinfeld:

    “I’ll tell you what I like about Chinese people. They’re hanging in there with the chopsticks. You know they’ve seen the fork. They’re staying with the sticks. I don’t know how they missed it. Going out all day on the farm with a shovel. Come on. Shovel. Spoon. You’re not plowing 50 acres with a couple of pool cues.”

    desculpa não resisti !! :)

    1. LOL, também sou um grande apreciador do Seinfeld. O meu episódio preferido é aquele em que as personagens vão ao centro comercial e estacionam num lugar reservado a deficientes :D O meu favorito é, evidentemente, o George Costanza.
      O ciclo das fotografias é mais simples:
      1 – exponho o rolo;
      2 – vou à Câmaras & Companhia, rebobino o rolo, tiro-o da câmara e entrego-o; compro outro rolo e meto-o na câmara ali mesmo;
      3 – dois dias mais tarde o Raúl Sá Dantas envia-me as digitalizações, em TIFF, via Dropbox;
      4 – passo as imagens para uma pasta, abro o DxO, selecciono a pasta e edito.
      Às vezes as coisas que nos dão prazer demoram mais tempo. Até há algumas que fazemos os possíveis para que durem mais tempo. E os chineses devem achar muito mais natural usar os chopsticks do que talheres (lembra-te do conceito de slow photo que desenvolvi há uma semana e tal atrás…).
      Abraço
      M. V. M.

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