Kodachrome, Eggleston e a evolução da fotografia a cores

Imagem processada com o filtro "Kodachrome 64" do DxO Optics Pro 8
Imagem processada com o filtro “Kodachrome 64” do DxO Optics Pro 8

No texto de ontem contei a minha experiência com um filtro do DxO Optics que dá à imagem a aparência de ter sido feita a partir de um negativo. Processei duas ou três digitalizações com esse filtro, mais concretamente com o que simula o Kodak Kodachrome 64. O facto de ter experimentado este filtro levou-me a pensar na evolução da fotografia a cores e, embora não queira mergulhar na história nem aborrecer o leitor com questões técnicas (que de resto não domino), penso que esta evolução pode trazer algumas surpresas, sobretudo aos leitores que ainda viveram a época do monopólio do filme, mas não são tão velhos que ainda se lembrem de quando os rolos que se vendiam eram, na sua esmagadora maioria, a preto-e-branco.

A fotografia a cores teve um início particularmente lento. Apesar de as primeiras experiências datarem de 1840, e de o princípio de combinar as cores primárias – vermelho, verde e azul – remontar a 1860, o fime a cores demorou muito tempo a suplantar o preto-e-branco. Quais as razões para que isto tivesse sido assim não sei ao certo, mas houve quem fizesse experiências desde muito cedo, já no Século XX, sem que as cores fossem economicamente viáveis de produzir.

De facto, as primeiras películas a cores demoravam uma eternidade a expor. As experiências do Século XIX foram um fracasso comercial (e estético também, deve dizer-se) porque as chapas usadas nesse tempo exigiam tempos de exposição de muitas horas! Já no Século XX, as primeiras películas comercializadas requeriam também exposições longas, embora não tanto como as do século anterior. Quando os primeiros negativos foram comercializados, as velocidades ASA (ou ISO, se quiserem) eram inacreditavelmente baixas, na ordem dos 10 ASA. Isto obrigava a tempos de exposição longos, o que por seu turno tinha por consequência necessária o uso de um tripé.

Por esta altura já era frequente comercializarem-se rolos de alta velocidade para preto-e-branco, o que levou a que as primeiras películas a cores fossem ostensivamente ignoradas pela maioria dos profissionais e, evidentemente, pelo público em geral. É que os preços dos negativos e da revelação eram proibitivos, o que levou a que apenas alguns profissionais se interessassem pela fotografia a cores. Só na transição dos anos 70 para os 80 do Século XX é que foi possível lançar no mercado rolos a cores de preço semelhante ou inferior aos de preto-e-branco. No caso particular do Kodachrome, o primeiro rolo com velocidade razoavelmente alta – 200 ASA – só foi lançado em 1986. Até então, a sensibilidade máxima do Kodachrome era de uns míseros 64 ASA.

A partir dessa época a procura fez com que as vendas de rolos a cores disparasse. Quando a fotografia digital foi introduzida, as vendas de rolos de preto-e-branco eram já residuais quando comparadas com os rolos a cores. (Muitos ter-se-ão decerto apressado a anunciar a morte do preto-e-branco nessa altura, não tenho dúvidas…) O preto-e-branco teve sempre um núcleo de entusiastas muito forte, mas o que o público consumidor queria era cores.

Fotografia por William Eggleston
Fotografia por William Eggleston

Para a evolução da fotografia a cores contribuiu decisivamente um grupo de fotógrafos que não tinha receio de fazer experimentações. Entre eles estava William Eggleston, a que chamam – talvez indevidamente – o pai da fotografia a cores. Eggleston era, como devem imaginar, um utilizador do Kodachrome, e um daqueles que costumava expor para o céu, de maneira a aumentar o contraste e a saturação das cores. As suas fotografias não eram nada de excepcional, pelo menos quando comparadas com as dos contemporâneos que fotografavam a preto-e-branco, mas fizeram muito para desenvolver a fotografia a cores. A introdução da cor em temáticas que antes eram abordadas a preto-e-branco veio desmontar as construções teóricas da altura, que negavam à fotografia a cores um estatuto artístico – e de facto a fotografia perdeu muito da sua natureza abstracta com a cor –, mas não foi apenas por isto que a fotografia a cores alterou a maneira de fotografar: com a cor, William Eggleston abriu a fotografia a temas completamente diferentes dos que se praticavam até então, já que a cor – e não tanto as formas e os volumes – passou a ser o elemento dominante na composição fotográfica.

O digital veio consagrar a cor como forma maioritária de fotografar. Como aludi mais acima, a película já reduzira o preto-e-branco a uma condição residual, mas a introdução do digital reservou o preto-e-branco a um núcleo de pessoas que fotografam com pretensões artísticas (fundadas ou não). Para o público em geral, a cor é o único modo de fotografar. Se assim é, muito do crédito é devido ao Kodachrome e ao seu campeão William Eggleston.

M. V. M.

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