O mistério azul e outras histórias

O Mistério Azul

Img - 005Ainda a propósito das cores adulteradas que afectaram algumas das minhas fotografias quando as gravei no Kodak Portra 160, hoje confirmei uma das explicações plausíveis para o fenómeno. Por alguma razão que não sei explicar, todas as câmaras, grandes ou pequenas, analógicas ou digitais, tingem a imagem de azul quando se fotografa à sombra. Olhando para as fotografias em que o referido fenómeno se manifestou, verifiquei uma característica comum: todas têm por sujeito objectos debaixo de sombra. Ter começado pelo digital para me voltar mais tarde para o rolo de 35mm privou-me de entender esta característica das câmaras, porque estava habituado a que a E-P1 equilibrasse as cores mediante a luminosidade existente. Na verdade, quando uso a E-P1 fotografo quase sempre com o WB (White Balance, ou equilíbrio dos brancos) no modo automático, deixando que o processador da câmara opere a sua magia. As câmaras de rolo não têm nada parecido com isto. Infelizmente. A única solução é procurar não fotografar objectos debaixo de sombras. O que não faz muita diferença, desde que se esteja avisado deste fenómeno. Deve encarar-se o rolo a cores como uma forma de capturar cores vibrantes debaixo de luz intensa, o que o torna ideal para fazer fotografias alegres e divertidas. (Evidentemente, isto não se aplica aos rolos de preto-e-branco, que muitas vezes beneficiam da subexposição dada pelas sombras.)

O Poderoso DxO Film Pack

Quando processei as digitalizações do Portra 160, deu-me a curiosidade de usar as simulações de filme do DxO Optics Pro 8. Apesar de ter algumas reservas quanto a esta imitação, a este fingimento de se ter fotografado com outro rolo, tenho de reconhecer que os resultados são fantásticos. O programa processa as imagens para lhe dar o aspecto do Fuji Astia e do Provia e também dos Kodak Ektachrome 100 e do famosíssimo Kodachrome 64. Os resultados, com este último, foram simplesmente espectaculares: as cores tornaram-se mais vivas e vibrantes e os contrastes mais acentuados. Por vezes as pessoas associam a fotografia convencional a cores deslavadas e antiquadas, mas o Kodachrome é tudo menos isso: as cores são saturadas e vibrantes e as imagens tornam-se exuberantes na sua riqueza cromática.

As opções do DxO Optics Pro 8 são apenas uma amostra. O DxO Film Pack, um plug-in que também pode ser instalado nos Photoshops, tem nem mais nem menos que vinte e seis simulações de filme preto-e-branco e doze a cores. Agfa, Fuji, Ilford, Kodak. Polaroid, Rollei – estão lá todos. Até está lá um rolo Lomography! Eu experimentei uma versão de ensaio, válida por 30 dias, mas na altura nutria um desprezo olímpico por essas coisas. Agora que tenho uma câmara convencional, prefiro the real thing, mas estas simulações de filme não deixam de ser interessantes por serem extremamente verosímeis. E se Sebastião Salgado usa o Dxo Film Pack, quem sou eu para o contrariar?

A artista, a carroça e o Rolls-Royce

Hoje tive uma das sessões fotográficas mais divertidas de sempre: fui para a Foz, à caça de clássicos, com a OM-2 e o Tri-X nas entranhas desta. Clássicos? Um Land Rover Defender de 1981 e um Jaguar XJS. Por enquanto. Entretanto, uma mulher ainda jovem aproximou-se de mim e fixou os olhos na minha câmara, que achou «linda». Conversámos um pouco sobre fotografia e material convencional e fiquei a saber que a mulher é uma artista plástica que também se dedica à fotografia, com um curso profissional do Instituto Português de Fotografia e tudo. E dá aulas de fotografia, ensinando a utilizar linhas no enquadramento. Convenci-a que não há razões, em termos de dispêndio, para não se ter uma câmara convencional e respectivas lentes. Talvez tenha evangelizado alguém para a fé da fotografia convencional. Foi um momento extremamente agradável, que culminou com um retrato que não deve ter ficado muito bem enquadrado (fi-lo na horizontal).

Logo a seguir, vi uma carroça puxada por um cavalo a percorrer a Rua de Gondarém. Pensei que tinha perdido uma oportunidade de fotografar aquele momento bizarro e completamente anacrónico, mas esta aconteceu um pouco mais tarde, porque o condutor da carroça havia parado numa esquina, no cruzamento imediatamente adiante. Pimba!, uma fotografia. Estou morto por acabar de expor o Tri-X para ver o que saiu dali.

E, quando voltava para o carro, que encontrei? Não, ainda não foi o DS (tenho a impressão que vou morrer com um ataque cardíaco quando encontrar um Boca-de-sapo, o que poderá, eventualmente, privar-me de fotografá-lo). Foi um Rolls-Royce que já fotografara antes. Foi com este Rolls como motivo que fiz uma fotografia a que chamei Spirit of Ecstasy, que considero a melhor fotografia de automóveis que fiz até hoje. Fotografei-o outra vez, procurando não repetir as fotografias que fizera da primeira vez.

Felizmente há dias assim.

M. V. M.

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1 thought on “O mistério azul e outras histórias”

  1. Eu faço imensas avarias do genéro com as minhas fotografias. Às vezes de mais. Como tu dizes muitas vezes, com programas de edição de imagem é necessário refrearmo-nos um bocadinho, se não acabamos por estragar mais do que arranjar…

    Para quem queira experimentar estas “simulações” de filmes analógicos sem comprar o Photoshop ou o DxO, fiquem a saber que o gimp oferece uma funcionalidade semelhante
    http://blog.patdavid.net/2013/08/film-emulation-presets-in-gmic-gimp.html

    Não sei se é melhor, ou pior, mas é menos dispendiosa.

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