Ainda mais baralhado

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Anteontem escrevi sobre como certas coisas, na dicotomia fotografia digital – fotografia convencional, me deixam baralhado. E sobre aspectos, dentro de cada uma destas modalidades, que me deixam ambivalente ou indeciso. Uma causa de grande confusão, quanto à fotografia com rolo de 35mm, é a diferença entre fotografar a cores e fotografar a preto-e-branco. Depois de receber as digitalizações do Kodak Portra 160, com os problemas cromáticos a que me referi aqui no blogue, senti vontade de nunca mais comprar rolos a cores e manter a minha OM-2 numa dieta de preto-e-branco.

Depois de as retocar, comecei a ver as fotografias a cores com olhos de ver, sem estar a analisá-las do ponto de vista técnico. Tinha para mim que fotografar com um rolo de cores é um pouco aborrecido, porque demoro muito tempo a expô-lo. A explicação para esta demora – demorei um mês a preencher o Portra 160 – tem que ver com o facto de, por um lado, fazer o grosso das minhas fotografias a preto-e-branco e, por outro, ter de procurar temas em que a cor seja uma característica dominante. No preto-e-branco procuro formas, volumes e contrastes; com cores procuro outrras coisas: vibração, harmonia, riqueza cromática. O que explica que me volte tantas vezes para os vermelhos, mas também para os verdes da natureza. Simplesmente, procurar motivos em que a cor seja uma característica predominante poderia – pensava eu – implicar fazer fotografias tematicamente desinteressantes.

Img - 037BEstava completamente enganado. Fiquei satisfeitíssimo com as fotografias a cores deste que é o meu terceiro rolo colorido. A demora em expor o rolo deveu-se, simplesmente, ao facto de ter de procurar motivos melhores, não desperdiçando fotogramas com assuntos desinteressantes. O que significou ter ficado imensamente contente com quase todos os fotogramas – abstraindo, evidentemente, dos problemas que se manifestaram com algumas cores nas fotografias. Enquanto editava as fotografias com o DxO, senti uma satisfação enorme – o que é outro factor de perplexidade, porque parecia-me que editar digitalmente fotografias de rolo de 35mm era anátema – por verificar que quase todas as fotografias daquele rolo eram extremamente satisfatórias. (Satisfatórias para mim, claro: o espectador pode ter uma opinião completamente diferente.) Consegui fazer fotografias alegres e interessantes do ponto de vista temático, o que me deixou surpreendido e confuso, porque não esperava grande coisa das exposições com aquele rolo – mas os resultados saíram muito melhores do que imaginara. Consegui maior variedade temática do que quando fotografo a preto-e-branco, com temas mais descontraídos e casuais. O que é bom. Como não me senti constrangido por temas previamente determinados, as fotografias saíram mais espontâneas e leves, mas nem por isso banais ou desinteressantes.

Agora estou num estado de confusão completa. Não sei o que fazer. Já cheguei a pensar fotografar a cores com a OM e deixar o preto-e-branco para a câmara digital, mas não o posso fazer por causa dos resultados obtidos com o Ilford FP4 (e tenho a sensação de que vou gostar do que estou a fazer com o Tri-X). Tudo isto leva-me a pensar que não devo planear demasiado a fotografia, nem estabelecer previamente os temas que quero fotografar. Claro que, com a OM, estarei sempre condicionado pelo rolo que estiver a usar num dado momento, porque, apesar de tudo, fotografar a cores ou a preto-e-branco não é indiferente: uma fotografia que resulta bem a cores pode ser um desastre a preto-e-branco, e vice-versa.

O que certamente perdi, com esta lição, foi a tentação de fotografar só a preto-e-branco. Das fotografias merecedoras de ser mostradas que fiz nos últimos cinco ou seis meses, as fotografias a cores contam-se pelos dedos de uma mão. Agora vi que é possível fazer fotografias imensamente satisfatórias a cores. Isto quer dizer que todas as minhas preconcepções estão a ser derrubadas, o que é extremamente libertador – mas deixa-me também um pouco perdido, como se tivesse de voltar atrás depois de ter caminhado durante muito tempo numa certa direcção. O melhor é pensar na fotografia como um passeio sem um destino previamente fixado.

M. V. M.

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