Libertação

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Ainda me sinto muito amarrado às convenções. Estilisticamente, a minha fotografia é ainda demasiado formalista e literal; tematicamente, é demasiado previsível. Ainda me sinto preso à necessidade de aceitação e reconhecimento das minhas fotografias. Cada vez mais sinto que tudo isto é um obstáculo à expressão e que preciso de me libertar de tudo isto: sinto necessidade de deitar fora a sabedoria convencional, os gostos aceites pelas maiorias e os espartilhos formais. Até agora, fazer o tipo de fotografia que faço foi importante para consolidar os meus conhecimentos e descobrir um estilo, mas insistir apenas leva à desinspiração e ao esgotamento dos motivos. Se não me libertar, corro o risco de perder por completo a inspiração e o gosto de fotografar.

Sou daqueles que entende que a fotografia não serve apenas para mostrar os objectos. A fotografia tem de ir muito mais longe do que a categoria de mero documento, ainda que este seja tratado de maneira original do ponto de vista estético. Um objecto é um objecto: não serve de nada mostrá-lo da mesma forma que toda a gente o vê. O que releva, na fotografia como nas outras formas de expressão visual, é mostrar os objectos tal como o fotógrafo os vê – ou melhor: de acordo com a impressão que o objecto lhe causa. E esta é uma questão que não se resume a perspectivas ou ao emprego de certas técnicas fotográficas. É necessário transcender a literalidade dos objectos e mostrá-los de acordo com a impressão que eles causam.

Até aqui o que tenho feito é largamente inspirado no que outros fizeram: quando fotografo, tenho sempre presente um conjunto de referências que passa, invariavelmente, pelos grandes nomes da fotografia de rua. Isto quer dizer, em grande parte, que aquelas fotografias não são minhas. Ou não são inteiramente minhas. Claro que tenho a consciência completamente tranquila quanto a isto: nunca imitei. Nunca tentei fazer passar as ideias dos outros por minhas. Mas as minhas fotografias incorporam ideias de outrem. É por isto que digo que não são inteiramente minhas. Preciso de ultrapassar isto e fazer fotografias que sejam só minhas.

A questão é que isto implica um caminho longo e difícil, uma aprendizagem nova que implica abandonar hábitos e fazer tudo de novo. Um verdadeiro recomeço. Vai ser difícil: vou ter de lidar, se seguir esta via, com a inaceitação e a incompreensão, mas sinto que é importante que o faça para ser fiel a mim mesmo. Até aqui assimilei as técnicas fotográficas, o que é importante, e penso ter treinado a maneira como vejo as coisas de maneira a exprimir minimamente os meus ideais estéticos; e julgo, pela apreciação que recebo de outros, ter adquirido boas noções de composição – mas falta-me encontrar uma expressão que seja só minha. Isto pode demorar anos a atingir, mas é o que quero fazer.

M. V. M.

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2 thoughts on “Libertação”

  1. Caro amigo.
    Como vai resolver o problema de se libertar das convenções e dos formalismos e encetar um novo estilo, porque o que escreve no seu artigo ” Astigmatismo e outras histórias” é que: “A experiência é uma coisa que vamos acumulando ao longo da vida, mas no fim, bem vistas as coisas, não serve para nada porque não nos prepara para situações novas. A sabedoria, essa, pode (deve) ser obtida enquanto se é jovem. Se não somos sábios até aos 45 anos pouco há a fazer, porque a partir dessa idade é sempre a descer: é aos 45 que atingimos o pico das capacidades mentais. Depois disto só ficamos mais burros”.
    Ora se vamos ficando mais burros, como vai resolver o seu problema de inovação e aprendizagem ?(bom, os burros também não são assim tão burros como os pintam). Não será que devemos antes aceitar o ditado que diz: Nasce-se sem saber, mas aprende-se até morrer.
    Não me leve a mal. Estou apenas a incentiva-lo a seguir em frente e a não levar a sério o pensamento que transcrevi do seu artigo, porque o mundo só ” pula e avança” com novas vontades, novas ideias e a busca da perfeição.
    Cumprimentos.

    1. Também escrevi isto:
      «…[A] Internet não é dos melhores lugares para manifestar sentido de humor. A menos que o site ou blogue seja declaradamente humorístico – tem de dizer expressamente «isto é para rir» –, quem anda na Internet pode ter dificuldades em discernir quando está diante de uma ironia ou de um sarcasmo. Ou mesmo de uma simples piada. Especialmente se estes forem subtis.»
      E mais: «É que as pessoas nem sempre compreendem que estão a ler um sarcasmo ou uma ironia. Isto não é por falta de inteligência, embora tal seja verdadeiro quanto a uma enorme massa de gente: é porque as pessoas estão habituadas a que se use um discurso grave e sério na Internet. Assim como quem anuncia a invasão militar de um país estrangeiro, ou informa alguém da morte de um familiar.»
      Está decidido: a partir de agora só vou escrever coisas graves e circunspectas…
      Abraço,
      M. V. M.

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