Slow photo

indexPenso que todos estamos cientes da existência de um movimento a que chamam slow food. Esta denominação não surgiu do acaso: foi cunhada por oposição ao conceito de fast food. Os partisanos da slow food pretendem restituir às refeições o prazer que estas proporcionavam antes da generalização do McDonald’s, da Kentucky Fried Chicken, da Taco Bell – que felizmente ainda não chegou a Portugal, pelo menos tanto quanto é do meu conhecimento – e de todas as pizzarias, bem como qualquer outra cadeia que comercialize refeições que se podem comer de pé e sem talheres (comer de pé com talheres poderia ser complicado), incluindo os restaurantes take away chineses.

Os adeptos da slow food são acima de tudo hedonistas e epicurianos. Eles propugnam o prazer de comer uma refeição como deve ser: sentados à mesa, com talheres, mastigando bem e a apreciar os sabores da comida. Ao mesmo tempo, propõem uma alimentação saudável – não apenas na escolha dos alimentos e na sua confecção, mas também na manutenção de bons hábitos alimentares.

Alguns podem argumentar que a slow food é para ricos e para pessoas que têm tempo suficiente para gozar o prazer de uma boa refeição, ao que se pode contrapor o facto de este tipo de alimentação ser o que se praticava antes de a indústria ter imposto o conceito de fast food e de os patrões terem começado a limitar o tempo disponível para almoço dos trabalhadores (eu recuso-me a aplicar o termo «colaboradores» a trabalhadores: é cínico e hipócrita).

Com a slow food podemos saborear os alimentos. Mas podemos, também, ter conversas agradáveis à mesa, em lugar de berrarmos para sermos ouvidos no meio da chinfrineira de um McDonald’s. Claro que a slow food é mais cara e demora mais tempo, mas é mais saudável. A abundância de fast food traz consigo um problema de saúde pública que pode ser equiparado a uma verdadeira epidemia: a obesidade. Esta, além do desconforto físico e do prejuízo estético, traz consigo problemas dela derivados, como desde logo a predisposição para problemas cardíacos. Acima de tudo, alimentos como os hamburgers da McDonald’s são confeccionados para ser superficialmente saborosos, mas são, na sua essência, compilações de erros nutricionais.

Por esta altura o leitor que veio aqui à procura de conhecimento sobre fotografia poderá, por ser inteligente – todos os meus leitores são pessoas incrivelmente inteligentes, daí serem tão poucos –, ter já descoberto algumas analogias evidentes entre a contenda fast food vs. slow food e a fotografia. E estará correcto ao pensar deste modo, porque, tal como há uma fast e uma slow food, também há, digamos assim, uma fast photo e uma slow photo. E os mais sagazes já terão percebido onde quero chegar: a fast photo é a fotografia digital, a slow photo a convencional. A slow photo saboreia-se lentamente, sem pressas, gozando o prazer de fazer tudo bem feito – tal como a slow food propugna uma alimentação sã e equilibrada. A slow photo dá mais prazer, mais pica. Porque temos de pensar, de ser perspicazes e de ser destros a trabalhar com a câmara. Na slow photo faz-se tudo para obter bons resultados à primeira, na fast photo habituamo-nos à gratificação instantânea. Na slow photo procura-se a qualidade absoluta, enquanto na fast photo somos ensinados a abrir mão da verdadeira qualidade em favor de impressões superficiais que nos tentam impingir como o novo conceito de qualidade.

Quando se expõe um rolo, aprende-se a esperar. Os resultados só serão visíveis daí por algum tempo, o que é um factor que inibe o stress. Demoramos a expor um rolo? E depois? qual é a pressa? As coisas são assim mesmo. Fotografar com um rolo de 35mm exige calma e tempo, o que torna os fotógrafos mais descontraídos porque não há pressa. É tudo mais calmo, ponderado e relaxado. Não é disparatado referirmo-nos à fotografia convencional como slow photo. Não existe a pressão – induzida pelas circunstâncias da sociedade – de mostrar imediatamente a toda a gente o que fizemos. É uma forma de fotografar eminentemente hedonística: quem a faz, fá-la pelo prazer que lhe dá fotografar assim. Mas nem por isso deixa de ser exigente e rigorosa: pelo contrário, a fast photo é que induz vícios e erros.

O que nos traz à analogia da obesidade. A verdade é que a fast photo faz com que se fotografe demais e muitas vezes sem sentido. Há fotografias a mais e o objectivo da qualidade fica diluído. Há gordura a mais na fotografia que se vê hoje. A carne é a mesma, mas é mais difícil encontrá-la por baixo das camadas adiposas.

Tal como a slow food, a slow photo é uma escolha, uma atitude e uma opção por um estilo de vida. É mais complicada? Certamente. Tal como usar talheres é mais difícil do que levar um cheeseburger à boca. Quanto a ser mais cara, bem – basta pensar no que se poupa ao Serviço Nacional de Saúde quando se opta por uma vida mais saudável. Ou, no caso da fotografia, quanto se poupa em equipamento para obter o mesmo nível de qualidade. E no que se poupa no psiquiatra por se ter menos stress.

M. V. M.

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