Astigmatismo e outras histórias

Like a Boss: daqui a uma semana poderei ser visto usando uns óculos destes. Oh well...
Like a Boss: daqui a uma semana poderei ser visto usando uns óculos destes. Oh well

Meus caros leitores, não se iludam tirando consolo da ideia de que a idade traz experiência e sabedoria. A experiência é uma coisa que vamos acumulando ao longo da vida, mas no fim, bem vistas as coisas, não serve para nada porque não nos prepara para situações novas. A sabedoria, essa, pode (deve) ser obtida enquanto se é jovem. Se não somos sábios até aos 45 anos pouco há a fazer, porque a partir dessa idade é sempre a descer: é aos 45 que atingimos o pico das capacidades mentais. Depois disto só ficamos mais burros.

Até aqui só me referi ao aspecto mental. Porque no físico começa tudo a degradar-se depois dos vinte. A partir dessa idade entramos em decomposição, perdemos força e vitalidade a cada dia que passa. Não se iludam: a idade só traz tristeza e azedume, como o prova o facto de os reformados que vão jogar sueca para os jardins públicos serem todos pessoas cínicas e amargas.

E quando se passa a barreira dos 50 a queda torna-se abrupta. É como se, de repente, por magia, perdêssemos tudo o que ainda tínhamos de juventude e nos tornássemos velhos. Todos os dias acontece qualquer coisa que nos lembra de que estamos a caminhar inexoravelmente para a velhice. No meu caso foi a consulta de oftalmologia a que fui ontem. A optometrista e a médica entretiveram-se o tempo todo com alusões jocosas e dolorosas à idade, fazendo-me sentir um geronte. Uma espécie de Manuel Alegre sem voz de barítono e sem jeito para a poesia. O pior é que tinham razão. Desde 2007 que tenho problemas de presbiopia e uso óculos para ver ao perto, mas a minha visão degradou-se muito desde então: agora, além da presbiopia, tenho astigmatismo. Quer dizer que vejo mal ao perto e tenho dificuldades em focar ao longe. Fiz aqueles testes de tentar ler letras a cinco metros de distância e as letras da fila de baixo apareciam-me esborratadas. Confundi um K com um H! Só vejo bem, sem a ajuda de óculos, num espaço que anda entre dois e quatro metros. Quer dizer: vejo bem à distância, mas com relativamente pouca nitidez. Ainda não é preocupante: ainda sou capaz de conduzir melhor que o Mr. Magoo, pelo que não preciso, para já, de lentes progressivas, mas já tenho dificuldades em focar correctamente ao perto e ao longe. Tenho 2,5 dioptrias no olho esquerdo e 3,5 no direito, o que me qualifica como um pitosga.

Claro que tudo isto me fez pensar em analogias entre os olhos e as lentes. Desta vez para chegar a uma conclusão diversa daquela que atingia até há bem pouco tempo: os olhos não são os melhores instrumentos ópticos existentes: as lentes é que o são. Eu explico: as lentes não se degradam com a idade (a menos que desenvolvam fungos ou acumulem poeiras no interior, o que significa que o seu cano não está devidamente selado). E, quando os olhos fraquejam, o que vem em seu auxílio? As ópticas! Daí que estas sejam superiores. As boas lentes, como as Zeiss ou as Leica, são muito melhores que os nossos olhos porque o seu desempenho não se degrada com o tempo. (Não é por acaso que a Zeiss é uma das potestades da óptica médica…)

Curiosamente, algumas lentes sofrem de problemas em tudo iguais aos dos nossos olhos. O astigmatismo é uma delas. Há lentes – sobretudo as mais fracas – que têm este problema de falta de nitidez em objectos distantes. As lentes têm também problemas que os olhos não têm, como as aberrações cromáticas – é muito mau sinal se virmos orlas púrpura à volta dos objectos! – e distorções geométricas, mas estes defeitos não existem se as lentes forem bem concebidas. De resto, as lentes vêem uma gama dinâmica melhor do que aquela que os olhos conseguem captar e uma gama de cores maior. Mesmo debaixo de luz intensa, o factor limitativo da resolução é a sensibilidade do filme ou do sensor; nós, por outro lado, cegamos quando vemos luz intensa de frente.

Estão a ver? Há casos em que o homem não se limita a imitar a natureza: melhora-a. Uma boa lente é muito melhor que os nossos olhos. Pena serem tão grandes quando comparadas com os nossos olhos, mas nada é perfeito…

M. V. M.

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