Textos pedidos: mais sobre regras

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«I know rules are a bore…»

The Human League, I Am The Law (álbum Dare, 1982)

Com certeza já todos são mais ou menos familiares com as regras de composição de uma fotografia. Certamente já ouviram falar, entre outras, da regra dos terços. As regras da fotografia são para aprender, assimilar e depois não usar. Antes de as rejeitar, porém, é imperativo conhecê-las. Só depois decidimos se as queremos aplicar.

Isto tem uma razão de ser muito sólida: é que as regras não são normas impostas heteronomamente ao fotógrafo, como se fossem comandos emanados por uma autoridade dotada de poderes coercivos (aquilo a que os juristas chamam o ius imperii). As regras têm de ser compreendidas a partir de quem vê uma fotografia. É por causa destes que elas foram estabelecidas. É que as regras baseiam-se na percepção visual. Para o fotógrafo, elas não enunciam um comando porque não são obrigatórias, mas são um guia importante. Nem toda a gente que fotografa tem noções gestaltianas de percepção, daí que o conhecimento fotográfico acumulado e a psicologia da percepção tenham escrito estas regras. Se quisermos, podemos olhar as normas como fórmulas para fazer com que as fotografias resultem. São, deste modo, estabelecidas no interesse do fotógrafo, para o ajudar a tornar as suas fotografias mais inteligíveis.

A primeira noção a reter é que, por força do treino quotidiano, desenvolvido muito cedo com a aprendizagem da leitura, percebemos visualmente de uma certa maneira. O nosso olhar percorre a fotografia exactamente como se fosse uma página de um livro ou de um jornal. Lemos da esquerda para a direita e do alto para o fundo, pelo que aquilo que primeiro vemos numa fotografia é o espaço e os objectos que existem do lado superior esquerdo.

Deste modo, é importante que o lado esquerdo da imagem não contenha elementos que distraiam o olhar daquilo que queremos mostrar. Se estivermos a fazer um retrato, devemos ter o cuidado de não colocar nenhum objecto que compita visualmente – pela carga visual, pela cor, pela dimensão ou pelo interesse fotográfico – com a pessoa retratada.

Também não convém que o lado esquerdo da imagem esteja vazio. O interesse perde-se mesmo antes de o olhar, que vê por varrimento da esquerda para a direita, atingir o motivo. Esta é a razão por que fotografias em que o motivo aparece no centro do enquadramento são desaconselhadas.

Isto não significa que o motivo não possa esta ao centro, ou do lado direito da imagem. Independentemente de opções estéticas do fotógrafo, que pode optar por não seguir as regras (o que é legítimo, mas só deve ser feito depois de as conhecer), há razões para que uma fotografia resulte bem quando o motivo não surge do lado esquerdo do enquadramento. A primeira é a existência de objectos que o fotógrafo quer que sejam vistos, mas isto implica que esses objectos não compitam, em carga visual, com o motivo. Esta opção pode ser tomada quando, por exemplo, se quer dar um contexto ao motivo.

Tomemos o exemplo da fotografia do topo: o motivo é, claramente, o homem no centro da imagem. Mas esse homem estava a conversar com uma mulher, que estava sentada do lado esquerdo e que eu quis que figurasse no enquadramento. Como a mulher está parcialmente obscurecida pelas sombras, perde carga visual, deste modo não competindo pela atenção do olhar.

O mesmo se diga, ainda quanto ao aparecimento do motivo no centro ou à direita da imagem, quando existem linhas que conduzem o olhar para o motivo. neste caso justifica-se que o motivo surja numa posição diiferente da determinada pela regra dos terços. É que estas linhas podem funcionar muito bem na composição, obrigando o olhar a percorrer a imagem até atingir o motivo (o que demora apenas uns milésimos de segundo).

Como disse, as regras não são para serem estritamente observadas. Se o forem, dão até a aparência de as fotografias de quem as segue seguirem fórmulas, o que não é desejável. Contudo, convém conhecê-las antes de nos emanciparmos delas.

M. V. M.

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