O que é arte?

© Andy Warhol Foundation for the Visual Arts / ARS, New York; used with permission
Andy Warhol, Triple Elvis, 1963

Houve tempos em que eu não fotografava, mas via fotografias. No meu cérebro havia uma distinção intuitiva entre a fotografia artística e a fotografia documental; nem sequer me dava ao trabalho de as categorizar, porque a diferença surgia-me claramente: os fotógrafos distinguiam-se pela intenção com que fotografavam. Saber se essa intenção é suficiente para definir uma fotografia – ou qualquer outra criação – como artística levanta, porém, inúmeras questões. Mesmo quando relatam factos, os bons fotojornalistas não fazem fotografia documental: transmitem a sua versão daqueles, vista através de uma expressão pessoal. Há amadores que o fazem, procurando um aprimoramento técnico e estético mesmo que fotografem as férias em família. Mesmo na fotografia publicitária há fotografias que são absolutamente brilhantes, se nos dermos ao trabalho de as ver com olhos de ver. Mas há sempre uma fronteira, uma delimitação; uma fotografia artística distinguir-se-á sempre pelo conteúdo e pela intenção expressiva e criativa.

Isto significa que a fotografia não é diferente de outras artes. Desde logo a literatura: o que distingue um romance de uma reportagem jornalística ou da literatura inclusa de um medicamento? É a intenção literária? Decerto quem escreve um romance não se contenta em narrar uma história, antes procurando transmiti-la de uma forma original através de um estilo literário, mas há áreas nebulosas: um ensaio pode ser considerado literatura se for escrito com bom estilo? Parece-me que não, porque não era intenção do seu autor produzir uma obra literária, mas sim um modo de divulgação e informação. Uma crónica num jornal, por seu turno, pode não levantar dúvidas quanto à intenção artística do autor. O mesmo se diga quanto à pintura: o pintor é aquele que transcende a descrição factual de um motivo para o apresentar segundo os seus conceitos estéticos pessoais. Ou na música e no cinema: a arte consistirá sempre na transmissão de uma ideia de uma maneira pessoal, original e única.

Contudo, hoje estes conceitos de originalidade e singularidade estão muito mitigados, de tal maneira que, seja qual for a arte que estejamos a discutir, se torna difícil distinguir a qualidade artística entre a enorme massa de propostas que é apresentada ao público: autores como Dan Brown ou Sveva Casata Modignani vendem milhões de livros, há cursos de pintura da Planeta Agostini e há câmaras em todos os telemóveis e tablets. A pergunta que se deve fazer é quais obras, de entre esta mole imensa e espessa, deverão ser reputadas como arte.

Além de trazer o aspecto da subjectividade para o debate, esta questão torna-se também de difícil resposta por força da erosão dos valores artísticos convencionais que se deu desde o surgimento de correntes como o modernismo e o cubismo no início do Século XX. O belo deixou decerto de ser um critério para aferir o conteúdo artístico de uma obra. A harmonia e o equilíbrio, atributos do belo, perderam importância, tal como a mensagem deixou de ser critério com a abstracção que caracteriza muita da produção artística ocidental operada durante a viragem do Século XIX para o Século XX. De Arnold Schönberg a Willem de Kooning, a arte contemporânea vive, essencialmente, da expressão: já não se procura comunicar uma ideia, mas sim mostrar ao público a visão das coisas do autor. Muita da produção artística dos dias de hoje tem tanto de vaidade como de criação.

Deste modo, saber se uma obra pode ou não ser reputada de arte depende, fundamentalmente, de saber se à sua criação presidiu uma intenção artística. Se a expressão de algo possui as características estéticas e de conteúdo que permitam defini-la como tal. De certo modo, caiu-se num relativismo que se aproxima do nihilismo: tudo é arte – porque a expressão está presente em muita da criação de obras – e nada é arte, porque os critérios de apreciação se tornam cada vez mais apertados. Isto é a consequência de um paradoxo: quanto mais produção de obras existe, mais estritos são os critérios definidores de arte. Hoje os críticos têm de ser mais exigentes para poder distinguir a arte pelo meio de toda a oferta existente. Contudo, há também aqui um factor perverso, que é a imposição de noções discutíveis de arte por circunstâncias meramente venais ou de moda. É assim com os blockbusters de Hollywood, com a pop comercial e com a fotografia de Annie Leibovitz.

Em última instância, o que possa ser considerado «arte» será sempre uma questão de apreciação pessoal. A arte há-de sobreviver à passagem do tempo. Este encarregar-se-á de seleccionar o que verdadeiramente contribuiu para o acervo artístico da humanidade. Há inúmeros exemplos de artistas imensamente populares no seu tempo que ficaram esquecidos e, inversamente, outros a quem só mais tarde foi reconhecido o devido valor. Mesmo na fotografia.

M. V. M.

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