Compreendendo melhor a profundidade de campo

000018BA profundidade de campo parece ser um dos assuntos que mais interessa aos leitores do Número f/, pelo que merece mais algumas linhas. Pela minha experiência pessoal, posso dizer que a profundidade de campo só é problemática até ser minimamente entendida e dominada. Depois disto é tudo uma questão de saber usá-la em benefício das fotografias. Com efeito, a profundidade de campo não é nenhum monstro; não é – não deve ser – intimidatória, porque é algo que não resiste a dez minutos de reflexão e a uma sessão breve de experiências no terreno.

A profundidade de campo é o plano da imagem ao longo do qual os motivos surgem com uma nitidez aceitável. Tal como os nossos olhos, as lentes não são concebidas, por limitações ópticas inultrapassáveis, para mostrar a mesma nitidez em todos os planos; há sempre planos em que a nitidez sofre. Mesmo que estejamos a fotografar uma paisagem a grande distância a f/11, se colocarmos um objecto a uma distância curta da lente veremos este último desfocado. Isto é uma limitação que cada um deve compreender e ultrapassar.

Uma experiência que pode ser feita, para melhor compreender a profundidade de campo, é aproximarmo-nos de um motivo à distância mínima que a lente permite. Todas as lentes têm uma distância mínima inscrita na própria lente, e esta distância é aquela abaixo da qual é impossível obter nitidez. Se usarmos uma lente de 50mm, essa distância mínima em relação ao objecto pode ser, por exemplo, de 25 centímetros. Se focarmos naquele objecto que está colocado à distância mínima, vê-lo-emos com nitidez, mas tudo o que está para cá e para lá dele ficará desfocado. Contudo, se nos mantivermos à mesma distância desse objecto e focarmos para uma área mais distante, veremos que o objecto inicial perde nitidez, enquanto o plano em que focamos adquire nitidez. É importante ter a noção de que o que fazemos, ao focar, é alterar o plano da imagem que surge nítido.

Agora afastemo-nos do objecto e foquemos nele de novo. O que veremos é que o objecto continua nítido, mas os restantes planos vão adquirir maior nitidez. Quanto mais nos afastarmos, maior será a nitidez em todos os planos. No primeiro caso, em que focámos o objecto a curta distância, usámos uma profundidade de campo estreita; quando nos afastámos, o que fizemos foi alargar a profundidade de campo.

Daí que tenha afirmado, no texto de ontem, que o principal factor determinante da profundidade de campo é a distância da câmara em relação ao motivo. A abertura é pouco relevante na determinação da profundidade de campo; a sua intervenção contribui apenas em, digamos, 20%, para a obtenção de nitidez. Bem mais importante do que a abertura é a distância focal. Quando se usam distâncias focais de grande-angular é relativamente fácil manter todos os planos nítidos, embora a experiência que sugeri acima também possa ser feita com grandes-angulares com os mesmos resultados. Também nestas lentes a profundidade de campo será estreita quando se foca um motivo próximo da distância mínima. Contudo, estas lentes são concebidas para responder a situações fotográficas em que importa ter uma profundidade de campo larga, de modo a que toda a imagem surja nítida. São as lentes que se deve usar em paisagens, arquitectura e interiores, onde se requer nitidez em todos os planos.

Com as teleobjectivas é tudo mais difícil. Estas lentes não são concebidas para manter a imagem nítida em todos os planos: são feitas para aproximar objectos distantes comprimindo a perspectiva e isolando o motivo dos planos aquém e além dele. São também lentes concebidas para trabalhar sempre na abertura máxima, o que dificulta ainda mais o alargamento da profundidade de campo. Não surpreende que sejam as lentes ideais para retratos, close-ups e vida selvagem. Nestas lentes a distância mínima é sempre muito grande: a minha OM 135mm-f/2.8 não foca se o motivo estiver a menos de 1,50m. Com estas lentes é praticamente impossível manter uma profundidade de campo larga: o que há a fazer é jogar com as suas características e aceitar que certos planos fiquem desfocados (agora já sabem que lentes devem usar para obter o famigerado bokeh…).

Resumindo:

– Quanto mais estreita for a profundidade de campo, maior será a desfocagem nos planos além e aquém do objecto;

– Quanto mais próximo estivermos do objecto, mais estreita será a profundidade de campo;

– Inversamente, quanto maior for a distância para o objecto, maior será a nitidez dos planos para cá e para lá do objecto;

– Quanto maior for a distância focal, mais estreita será a profundidade de campo.

Não sei pôr isto em termos mais simples. A minha recomendação é que experimentem com lentes diferentes (ou distâncias focais diferentes, se usarem um zoom), aproximando-se ou afastando-se do objecto. Assim terão uma noção muito mais real do fenómeno da profundidade de campo do que lendo o lixo que aparece nos fóruns dos sites de fotografia.

M. V. M.

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