Textos pedidos: mais sobre a profundidade de campo

jorge_lorenzo_renova_yamahaJorge Lorenzo é um piloto espanhol de MotoGP, a categoria máxima do motociclismo. É o corrente campeão do mundo, depois de já o ter sido em 2010 e de ter sido campeão do mundo na categoria 250cc em 2006 e 2007. Há três anos, li, chocado, uma entrevista em que ele fazia uma afirmação absolutamente extraordinária: Jorge Lorenzo não faz ideia de como funciona um motor!

No caso de estarem já a pensar que isto não tem qualquer pertinência para a fotografia, este exemplo do bicampeão de MotoGP serve para ilustrar um facto: não é necessário ter conhecimentos de mecânica para ser um grande piloto. Jorge Lorenzo pode não saber como funciona um motor, mas sabe certamente usá-lo.

Do mesmo modo, não é preciso saber como funciona uma câmara e uma lente para fazer boas fotografias. O que importa é saber usá-las. Contudo, há muita gente que não pensa assim. Há pessoas que pensam que saber as equações todas sobre a profundidade de campo as vai ajudar a fazer fotografias espectaculares, com aquele bokeh cremoso que delicia os papalvos que não percebem quando estão na presença de uma boa fotografia mas se deixam impressionar por efeitos visuais baratos. O meu conselho é que sejamos mais Jorge Lorenzos do que especialistas da abertura nos fóruns do dpreview.com.

Já escrevi aqui sobre este assunto, mas recebi dois pedidos para o desenvolver, pelo que vou voltar à questão da abertura e da profundidade de campo, referindo en passant a questão da abertura equivalente. De acordo com Ctein, o meu novo guru da fotografia, a profundidade de campo, que é o plano ao longo do qual a imagem se mantém nítida, depende, por esta ordem de importância, de três factores: a distância em relação ao motivo, a distância focal e a abertura. A minha experiência com a Olympus OM-2n confirma esta tese. A distância em relação ao objecto é, de longe, o factor que mais faz variar a profundidade de campo. De uma maneira geral, quanto mais longe estivermos do motivo, maior será a profundidade de campo. A distância focal é também muito importante: uma teleobjectiva dará sempre uma profundidade de campo mais estreita do que uma grande-angular (razão pela qual não compreendo aqueles que exigem que uma lente de 28mm faça muito bokeh).

Dos três factores que referi, a abertura é o que menos influencia a profundidade de campo. Se fizerem uma fotografia de um motivo distante, pouca diferença faz se usarem f/5.6, f/8 ou f/11: a nitidez será praticamente a mesma em todos os planos. Pela minha experiência, a abertura apenas tem repercussões notórias na profundidade de campo quando a câmara está próxima do motivo – e mesmo assim isto só se verifica nos chamados crop sensors, i. e. nos sensores de área menor que full frame.

Isto acontece por uma razão muito simples: é que, para termos o mesmo campo de visão que com uma câmara full frame com uma APS-C ou 4/3, temos de estar mais longe do motivo. Ora, se isto é assim, quer dizer que o que verdadeiramente influi na profundidade de campo é a distãncia em relação ao motivo. Contudo, alguns formulam a seguinte teoria: para que uma câmara com crop sensor produza o mesmo bokeh, tem de usar uma abertura maior do que uma full frame, por isso se usamos uma lente de 50mm com f/4 numa full frame, precisamos, dada a mesma distância em relação ao motivo e distâncias focais idênticas, de f/2 numa câmara com sensor 4/3 ou f/3 numa APS-C. Daí que alguns estabeleçam uma relação de equivalência em termos de campo de visão, sendo que f/2.8 numa full frame equivale a f/5.6 numa 4/3.

Isto é falso. Como vimos, o que varia no exemplo acima, com relevância na determinação da profundidade de campo, é o campo de visão. E este é determinado pela distância, e não pela abertura. O certo é que há muitos que extrapolam esta questão para fora do âmbito do campo de visão e afirmam que uma lente para 4/3 com abertura máxima de f/1.4 tem, na realidade, uma abertura equivalente de f/2.8. Como vimos, este é um raciocínio viciado por um erro numa premissa: a de que a abertura é o factor mais determinante na profundidade de campo.

Esta crendice, reminiscente da superstição, levou a que uns sujeitos usassem este pseudo-conhecimento para vender um acessório, chamado Metabones, que é um adaptador que permite a uma lente ter aproximadamente o mesmo campo de visão, em câmaras com crop sensor, que quando montada numa full frame. Isto é possível, evidentemente, através de elementos ópticos montados no adaptador, mas o que estes intrujões fazem é tentar convencer os compradores que a sua lente f/1.8 se transforma numa lente f/1.2 quando montada com o Metabones. E ofuscam os interessados com matemáticas infindáveis para tentar provar esta «equivalência». Isto é completamente falso, a menos que o adaptador tenha umas alavancazinhas que fazem abrir mais as lâminas da íris da lente. Porque este é o único meio de fazer variar a abertura.

É por estas e por outras que, num texto anterior, vos aconselhei a confrontar tudo o que lêem na Internet com outras fontes. É que, para além de sabichões de meia-tigela, há também vigaristas a aproveitarem-se do desconhecimento dos potenciais compradores. Não acreditem nas tretas da «abertura equivalente». A maneira como fazem variar a profundidade de campo é usando as vossas perninhas para se aproximarem ou afastarem do motivo, ou mudando a distância focal. A abertura conta pouco para isto, e ainda menos contam as equações para determinar a «abertura equivalente». Aspirem a ser o Jorge Lorenzo da fotografia, e não aqueles desportistas de bancada que sabem os números todos.

M. V. M.

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2 thoughts on “Textos pedidos: mais sobre a profundidade de campo”

  1. Hei, MVM, obrigado pelos artigos!

    Ora muito bem, vamos lá começar por este, pois eu continuo com uma dúvida.

    Quando referes “a profundidade de campo, que é o plano ao longo do qual a imagem se mantém nítida, depende, por esta ordem de importância, de três factores: a distância em relação ao motivo, a distância focal e a abertura.” eu também concordo com isso, baseado na minha experiência. Exactamente essa ordem. Até aqui, tudo bem, não tenho qq dúvida.

    Mas quando referes “que alguns estabeleçam uma relação de equivalência em termos de campo de visão, sendo que f/2.8 numa full frame equivale a f/5.6 numa 4/3”, aqui, surge-me uma questão:

    – vamos supor 3 lentes em 3 camaras com sensores de diferentes (e admitamos que o aspect ratio é o mesmo, para não complicar).
    – suponhamos ainda que essas 3 lentes têm a seguintes distâncias focais: 20mm em m43; 25mm em APS-C, 40mm em FF (que penso terem todas o mesmo campo de visão).
    – considerando ainda, como exemplo, uma abertura f4, que na lente FF “devolve” uma certa profundidade de campo…

    … com que abertura eu obtenho a mesma profunidade de campo nas outras 2 lentes? Nota que como as lentes têm focais diferentes, a distância da camara ao “objecto” é a mesma, certo?

    Nesta circunstância não se poderia falar de uma abertura equivalente?

    Obrigado!

    1. Olá Groucho.
      A abertura só influencia a profundidade de campo em cerca de 20%. Digo-o depois de muita experiência com uma câmara em que o mais difícil é manter tudo em foco (uma câmara de 35mm devia ser o sonho de qualquer tarado do bokeh…) e tenho profundidades de campo estreitas a f/8! A questão da «abertura equivalente» é falsa porque se baseia na presunção de que a abertura é o factor mais determinante na profundidade de campo, o que não é verdade. A dificuldade dos sensores pequenos é que precisas de estar mais perto do motivo para ter o desfoque que obténs com uma full-frame a uma distância maior. Como estamos a distâncias diferentes, é impossível dizer que consegues o bokeh com a abertura x numa câmara com crop sensor e com a abertura y numa full frame. O raciocínio dos que acreditam na «abertura equivalente» é mais ou menos este: para teres a mesma profundidade de campo que numa FF com uma crop, tens de estar mais perto do motivo e com uma abertura maior, pelo que se tens o bokeh N com uma FF a 1 metro a f/2.8, numa 4/3 tens de estar a 50cm e com f/1.4 A falha deste raciocínio é que é indemonstrável, porque quando estás tão perto do motivo tens tanto bokeh a f/2.8 como a f/5.6 Na prática nada disto é importante. O que tens de fazer, com uma 4/3, é aproximares-te mais do motivo, porque a distância é o factor mais importante na profundidade de campo.
      Percebes agora a metáfora do Lorenzo?

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