Sebastião Salgado

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No mês passado, quando estive na Fnac e comprei os livros a que me referi no texto de 15 de Agosto, folheei o álbum Gênesis, de Sebastião Salgado (ed. Taschen). Se há algo que me faria perder a cabeça e gastar cerca de €60, é este álbum. É enorme, pesado, grosso e, como vimos, muito caro – mas vale a pena.

Porquê? Duas razões. A primeira é que Sebastião Salgado é um dos dois ou três verdadeiros génios da fotografia ainda vivos. Que ninguém tenha dúvidas: o seu nome está a par dos de Henri Cartier-Bresson ou Josef Koudelka e muito acima dos de Robert Capa e de qualquer outro constituinte da Magnum. Sebastião Salgado é um dos mais portentosos fotógrafos de sempre. Felizmente ainda está vivo e continua a fotografar, e tem o reconhecimento em vida que merece. Ter um álbum de Sebastião Salgado é ter um pedaço da história da fotografia, uma compilação de algumas das melhores fotografias de sempre.

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A outra razão é a qualidade absolutamente delirante das suas fotografias. Não apenas no conteúdo – não há outro fotógrafo que melhor tenha descrito a condição humana do que Sebastião Salgado nas fotografias que integram o álbum Trabalhadores, as quais foram o meu primeiro contacto com a sua obra –, mas também na estética. As fotografias de Sebastião Salgado são perfeitas. Peço desculpa àqueles que acreditam que a perfeição não existe, mas esta é uma regra que, como todas as regras, comporta excepções. As fotografias de Sebastião Salgado são algumas delas. Não há outro adjectivo para qualificar a estética da maior parte das fotografias de Sebastião Salgado, a não ser perfeitas. Antes de mais, são em preto-e-branco, e por uma boa razão: o preto-e-branco torna mais perceptíveis os tons, os contrastes, os pormenores e as pequenas nuances dinâmicas da imagem a que se dá o nome de microcontraste, o qual é essencial para a definição do pormenor nos motivos. As fotografias de Sebastião Salgado são uma orgia de pormenores que prendem o olhar e o convidam a demorar-se no enquadramento e deixam quem as vê fascinado com a sua abundância e com a maneira subtil como estes pequenos detalhes são mostrados.

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Um atributo do preto-e-branco que não enumerei acima é a forma como descreve as texturas. Fi-lo propositadamente, porque as texturas são uma característica essencial da fotografia de Sebastião Salgado, merecendo um tratamento autónomo. Em muitas das fotografias as texturas são compostas por gente; isto é particularmente visível nas fotografias do álbum Trabalhadores, mas as texturas são, possivelmente, o elemento estético que melhor define e individualiza as fotografias de Sebastião Salgado, encontrando-se na pata de um réptil, nas fissuras de rochas, na vegetação, nos socalcos de uma montanha, em tecidos, na pele de uma pessoa ou na roupa colada a ela. E são estas texturas um motivo de constante fascínio nas fotografias deste génio brasileiro.

Composicionalmente, estas fotografias são cuidadas. Nota-se que é uma fotografia ponderada, estudada, com pouco ou nada de reactivo. Só deste modo é possível obter composições com a qualidade artística e estética de Sebastião Salgado. O fotógrafo compõe como um pintor comporia um quadro, com as mesmas preocupações de harmonia e de equilíbrio. Neste aspecto, são – uma vez mais – perfeitas.

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Sebastião Salgado é também um adepto da fotografia convencional. O grosso das suas fotografias é feito a partir de negativos Kodak Tri-X. As suas expedições fotográficas, integradas em projectos ambiciosos que implicam deslocações enormes por lugares difíceis e isolados (onde não há muitos laboratórios…), impedem o uso de rolos, pelo que Salgado adoptou a fotografia digital, mas emprega um método inacreditavelmente complexo e dispendioso de dar às fotografias digitais um aspecto semelhante ao da fotografia analógica. Este método, que começa com o processamento através do DxO Film Pack – Sebastião Salgado é um embaixador ex officio da DxO –, envolve: a) fotografar com uma câmara digital em Raw; b) processar a imagem Raw no programa de edição; c) processar com o DxO Film Pack, simulando o Kodak Tri-X 400 ou o T-Max 3200; d) Imprimir a imagem num internegativo de filme de 35mm; e) imprimir o internegativo em papel de arquivo de haleto de prata. Não admira, depois de tudo isto, que as fotografias de Sebastião Salgado sejam perfeitas – ou que, pelo menos, estejam tão próximas da perfeição.

M. V. M.

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3 thoughts on “Sebastião Salgado”

  1. Ganhei esse livro de minha esposa e filhos, como presente de aniversário, mês passado (e, como se não fosse mais do que suficiente, acompanhado de uma garrafa de vinho da mais alta qualidade). Já conhecia, claro, o trabalho de Salgado, mas “Gênesis” é um verdadeiro show, vale cada centavo (de Real brasileiro ou Euro, o preço está igual aqui e aí).
    Não bastasse a qualidade do trabalho dele, já assisti a umas duas entrevistas suas. Ele é agradabilíssimo, o típico sujeito com quem gostaríamos de sentar num banco de praça e passar algumas [dezenas de] horas conversando.
    Bela postagem, gosto muito do seu texto. Ótima tarde!

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