A ameaça dos smartphones e o futuro da indústria fotográfica

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Hoje, 22 de Setembro de 2013, o Público traz um artigo sobre o mercado da fotografia. Lê-se no artigo, que vem publicado no corpo do jornal (e não no suplemento 2, como seria plausível), que os smartphones estão a conquistar vendas em detrimento dos fabricantes de equipamento fotográfico tradicional.

O artigo começa com uma asserção discutível, que é a de que a fotografia digital acabou com o «velho rolo de filme». Alguém tem de mostrar este artigo à Ilford, à Kodak e à Fujifilm, bem como à Nikon e à Leica, porque estes fabricantes ainda não descobriram que o «velho rolo de filme» (sic) acabou. O Público teve sempre uma noção um pouco precipitada de progresso, porque diziam o mesmo sobre o vinil dez anos atrás e agora as vendas de vinil crescem todos os anos e os CDs têm vindo a desaparecer. É evidente que os rolos e o vinil são nichos, mas são significativos em volume de vendas.

Mas isto não é importante na análise deste texto. O que interessa saber é que a Canon, o gigante da indústria fotográfica, perdeu 18% do seu valor em bolsa este ano e 30% comparado com o seu melhor ano, que foi 2007 – não por coincidência, o ano em que o iPhone foi lançado. Os resultados da velha rival Nikon conseguem ser piores: neste caso as perdas foram de 44% em relação ao início de 2013 e 57% em relação ao máximo histórico, este último atingido – adivinharam – em 2007. É que a Nikon vive quase exclusivamente do equipamento fotográfico, ao passo que a Canon pode mitigar os prejuízos das câmaras e lentes graças ao volume das outras áreas de negócio, como o equipamento de escritório.

Seja como for, parece evidente que estas perdas têm uma relação directa com o crescimento dos smartphones. Poderá daqui inferir-se que as câmaras e lentes tradicionais vão ser substituídas, no futuro, por smartphones?

É cedo para dizer. A verdade é que, em poucos anos, os telemóveis deixaram de ter uma qualidade de imagem miserável para atingir níveis aceitáveis. Contudo, e a despeito de a qualidade de imagem de um smartphone ter mais margem para evoluir do que a de uma DSLR da Canon ou da Nikon, os smartphones tendem a ser usados por quem não quer mais que tirar fotografias casuais, sem pretensões artísticas. Os smartphones vieram livrar muita gente do incómodo de ter uma câmara a fazer volume no bolso (ou de andar com mais um saco a tiracolo) e tornar a fotografia acessível mesmo a quem até então nunca teve nenhum interesse particular pela fotografia. E as preocupações de qualidade destes utilizadores de smartphones não são tão altas como as dos compradores de equipamento fotográfico tradicional: aqueles bastam-se com um nível de qualidade suficiente para mostrar as fotografias nas redes sociais.

Os smartphones têm a vantagem (discutível) de ser possível partilhar instantaneamente uma fotografia ou um vídeo nas mesmas redes sociais. As câmaras tradicionais não têm esta característica. A Samsung lançou recentemente uma câmara com forma de DSLR, um sensor APS-C e lentes intermutáveis e, sobretudo, funcionando com o sistema operativo Android e tendo um interface baseado no dos smartphones e conectividade Wi-Fi, mas custa USD $1,700. Mil e setecentos dólares é muito dinheiro. Esta câmara é um nado-morto. A falta de «conectividade» é decerto a principal explicação para o facto de o crescimento dos smartphones estar a ser feito à custa das vendas dos fabricantes tradicionais. Por mais que queiramos pensar o contrário, a verdade é que a generalidade das pessoas contenta-se com níveis modestos de qualidade da imagem e gosta de partilhar as suas fotos instantaneamente no Facebook. O Facebook é estúpido, perverso e não faz sentido, mas existe. E quem está fora dele está fora da realidade e do mundo. Habituemo-nos.

Em face de tudo isto, o que eu prevejo é, não a extinção da Canon e da Nikon, mas uma diversificação da sua actividade, estendendo-a a outros ramos. O artigo de José Manuel Rocha aponta como exemplo a imagiologia de diagnóstico médico, o que é uma boa hipótese de expansão para fabricantes de ópticas (a Olympus e a Fujifilm já o descobriram há muito). Quando os fabricantes finalmente desistirem de incorporar a «conectividade» nas câmaras tradicionais – o que, a julgar pelo exemplo dado acima da Samsung, não funciona –, a indústria fotográfica tradicional reduzir-se-á a níveis realísticos, o que deve ser muito mais comportável do que vender câmaras a preço de saldo para tentar em vão concorrer com os smartphones. Haverá sempre clientela para boas ópticas e corpos de qualidade, porque haverá sempre quem queira fotografar com qualidade. Aliás, prevejo que venha a criar-se uma distinção clara entre «fotografia» e os «snapshots» que são tirados com telemóveis. Os smartphones têm limitações sérias de qualidade de imagem e não conseguem fazer um quarto do que uma câmara decente faz: não fotografam em Raw, não há modos de exposição semiautomáticos e manuais, não há bracketing, não fazem pannings nem longas exposições. Os seus sensores pequenos, por seu turno, nunca terão as propriedades dos sensores 4/3, APS-C ou full-frame: terão sempre, por mais megapixéis com que os atafulhem, problemas de resolução, de ruído e de gama dinâmica.

Imagens feitas com, no sentido dos ponteiros do relógio, iPhone 5, Samsung Galaxy 4, HTC One e Nokia Lumia 1020. "Qualidade" não é a primeira palavra que me vem à mente ao olhar para isto
Imagens feitas com, no sentido dos ponteiros do relógio, iPhone 5, Samsung Galaxy 4, HTC One e Nokia Lumia 1020. “Qualidade” não é a primeira palavra que me vem à mente ao olhar para isto

Apesar dos progressos que se verificaram desde que os telemóveis começaram a ser equipados com câmaras, a qualidade absoluta ainda está – e estará – apenas ao alcance do equipamento tradicional (compactas excluídas). E sejamos lúcidos: a despeito de todas as operações de marketing que nos querem convencer do contrário, o smartphone nunca será o instrumento de trabalho de um fotojornalista, de um fotógrafo de estúdio ou de um fotógrafo da natureza e da vida selvagem. Deste modo, o smartphone não vai matar a câmara tradicional. O que vai, provavelmente, é redefinir o mercado. Porque nem todos precisam de câmaras tradicionais, mas os que precisam delas serão sempre em número significativo. O que os fabricantes não podem, de qualquer modo, é ter a ilusão de que conseguirão lucros vendendo predominantemente material tradicional.

M. V. M.

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