E se eu revelasse os meus rolos?

Agora que tenho uma câmara convencional, dou por mim a pensar que, mesmo quando dominar a técnica, faltar-me-á sempre conhecer uma parte substancial da fotografia convencional. Mais exactamente, tudo o que se passa entre o momento em que acabo de expor um rolo e a impressão dos fotogramas. Por vezes isto leva-me a pensar se não seria também boa ideia ser eu mesmo a revelar as minhas fotografias.

Seria decerto fascinante saber fazer tudo o que é requerido até que a imagem recolhida pelo negativo se transforme numa fotografia, mas infelizmente não seria muito prático. Antes de mais, precisava de algo que não tenho de maneira nenhuma: espaço. Não tenho nenhuma divisão que possa transformar num laboratório. Podia usar algumas divisões para improvisar um laboratório, mas dificilmente conseguiria isolá-la completamente da luz. Depois há a questão dos materiais. Para revelar fotografias é necessário material que ocupa espaço: tanques, frascos, bobinas, funis, molas, etc. E, evidentemente, os químicos. Estes, por seu turno, são alvo de discussões que fazem as rivalidades entre fanáticos da Canon e da Nikon parecerem conversas cordiais: há os fanáticos do Rodinal e quem não o suporte. Um problema. Ao que acresce um processo que é reminiscente da alquimia, com produtos químicos que têm de ser doseados com rigor e operações que são tão complexas que me levaram por várias vezes a desistir de ler artigos sobre a matéria – quanto mais de as experimentar.

Depois há a ciência da revelação. Além de saber manusear os químicos, há que saber, por exemplo, quanto tempo devem os negativos estar no tanque de revelação. Estar demasiado tempo significa fotografias subexpostas, estar pouco tempo implica o inverso. Saber onde está este equilíbrio depende do gosto pessoal, o que é um forte motivo, só por si, para convencer o interessado a fazer ele mesmo as revelações, mas no meu caso tenho a sorte de conhecer um alquimista que compreende perfeitamente os meus gostos.

Na revelação são usadas técnicas de manipulação da imagem, como muitos sabem. Os que pensam que a manipulação da imagem surgiu com a fotografia digital devem ter grandes surpresas quando descobrem que muitas das ferramentas do Photoshop são baseadas nas técnicas de laboratório. Aqui podemos dar ênfase às sombras ou às altas luzes e manipular a nitidez da imagem com o unsharp mask. São lendárias as sessões de Ansel Adams e do seu grupo f/64 no quarto escuro, que se prolongavam por dias inteiros. Isto não é para qualquer um, evidentemente, mas muito do sucesso – ou falta dele – de uma fotografia é determinado por este processo.

Os meus maiores obstáculos, porém, são o tempo e o dinheiro. Eu podia resolver o problema da falta de espaço alugando um laboratório, mas ficaria caro. E teria de frequentar um workshop e despender semanas inteiras a colher informação antes de me sentir preparado para poder revelar um rolo com confiança. E eu não tenho esse tempo. O trabalho absorve-me tanto tempo que, por vezes, mal me dá para publicar aqui no Número f/ (o que vale é que eu escrevo muito depressa…) Seria impossível, a menos que me reformasse e auferisse uma pensão choruda, dedicar-me à revelação. Não pensem, contudo, que a desdenho: ver uma imagem a tomar corpo deve ser algo de verdadeiramente mágico! E eu não sou avesso a aprender coisas novas. Aliás, eu não sou avesso a aprender. Ponto parágrafo. Estou absolutamente certo que iria extrair imenso prazer da revelação de rolos, mas no momento actual, e dadas as minhas circunstâncias, tal não é possível. Infelizmente.

(Nota: se pensam que exagerei quanto aos materiais e à complexidade da revelação, leiam este excelente artigo. Infelizmente, esta leitura teve o efeito de me desmotivar ainda mais…)

M. V. M.

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