Erros de principiante (2)

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Outro erro de principiante é pensar que um objecto que nos atrai pelas suas qualidades visuais e estéticas é merecedor de uma fotografia. Vemos um objecto que achamos bonito, ou agradável, e fotografamo-lo. Depois pubicamo-lo no Facebook e esperamos que chovam likes como gotas de água numa tarde de monção em Singapura. O que não acontece. É que uma fotografia depende de muito mais que o nosso juízo para ser aclamada. É necessário que esteja bem feita e tenha algum significado – não apenas para quem a fez, mas para quem a vê. Há um enorme número de condições que necessitam de ser preenchidas para que a fotografia seja aceita por quem vê, desde requisitos técnicos até essa qualidade furtiva que é a originalidade. Pior do que este erro de apreciação, porém, é não ver o valor fotográfico de objectos. Como li algures, é preferível fazer fotografias bonitas de objectos banais do que fazer fotografias banais de objectos bonitos.

Os principiantes incorrem frequentemente no erro de pensar que as regras não se lhe aplicam. Esta atitude é de uma sobranceria inquantificável (ou então é uma forma de dissimular a ignorância das regras). É precisamente quando se começa que as regras são importantes. Mais tarde serão dispensáveis, mas quando se começa são essenciais à aprendizagem dos fundamentos da fotografia. Elas são como as rodas auxiliares das bicicletas com que as crianças aprendem a pedalar: sem elas não se consegue obter o equilíbrio necessário. Pensem bem nesta comparação, porque ela faz todo o sentido. Edward Weston, que ganhou notoriedade pelas suas fotografias de carácter eminentemente abstracto e pela liberdade de forma que caracterizava o grosso da sua obra, foi um formalista rígido e seguidor estrito das regras no início da sua carreira. Só mais tarde, depois de dominar as técnicas de composição e enquadramento, se libertou das regras. Mas não de todas.

Há também muitos que tentam dissimular os seus erros dizendo que são propositados. Se a atitude, assumida por alguns, de pensar que as regras não são para eles é sobranceira, a de fingir que os erros são intencionais e parte da expressão fotográfica de quem os comete raia a estupidez. Uma fotografia com um enquadramento falhado é natural quando se começa a fotografar, tal como o é fazer fotografias tremidas quando ainda não se aprendeu a lidar com os tempos de exposição. Devemos aprender com os erros e tomar medidas para corrigi-los; não podemos tentar impor esses erros como válidos, porque esta é uma atitude de uma indulgência que não pode ter lugar quando se quer aprender a fotografar. As fotografias não precisam de ser perfeitas, e há muitos fotógrafos que jogam deliberadamente com aquilo que muitos vêem como imperfeições para atingir objectivos estéticos. Contudo, isto implica um conhecimento preciso de fotografia – ou, pelo menos, saber o que é certo ou errado.

Por fim, o pior de todos os erros é pensar-se que se é bom. A fotografia é uma evolução e uma aprendizagem permanente. Devemos, a cada passo, questionar-nos sobre o valor e a qualidade do que fazemos e ser os críticos mais impiedosos de nós mesmos. Só assim se pode evoluir. Imogen Cunningham disse: «a minha melhor fotografia é a que vou fazer amanhã». É este o espírito que se requer quando se fotografa.

Claro que todos estes conselhos podem intimidar o entusiasta que se pretende iniciar na fotografia. Contudo, se a intenção for a de se dedicar seriamente a esta actividade, dificilmente o aspirante a fotógrafo poderá deixar de observar qualquer das recomendações que exprimi aqui. Olho para o que fiz ao longo dos meus pouco mais de três anos de experiência e tenho ainda dúvidas que não consigo resolver sem estudo e sem me aconselhar com outros que sabem mais do que eu – e tudo isto na certeza de que nunca vou saber tudo sobre fotografia.

Se isto vos parece um suplício de Tântalo, talvez o melhor seja perguntarem-se se querem mesmo aprofundar a dedicação à fotografia. Porque, para muitos, basta um nível de conhecimento técnico elementar. Mesmo quem fotografa sem pretensões artísticas, porém, deve ter alguns conhecimentos: será que alguém quer que as suas fotografias das férias e das crianças sejam motivo da troça de quem as vir no futuro? (Continua)

M. V. M.

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