Mais sobre o Ilford FP4

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Já depois de escrever o texto de ontem sobre a minha escolha do rolo para preto-e-branco que pretendo usar daqui em diante, passei algum tempo a apreciar as impressões feitas a partir dos negativos do Ilford FP4. Eu não sei até que ponto Raúl Sá Dantas terá introduzido algum dodging na revelação, mas, com a excepção das altas luzes proeminentes em algumas fotografias, este rolo corresponde exactamente aos meus ideais fotográficos. Já quando o usei, sem a menor possibilidade de saber como seriam os resultados, fiquei com aquela sensação indizível – chamem-lhe pressentimento, se quiserem – que tudo ia dar certo e que ia gostar das fotografias originadas dos negativos. Naturalmente, as minhas pesquisas tinham-me levado a ver fotografias feitas a partir do Ilford FP4, o que serviu para me dar pistas sobre as qualidades deste rolo, mas a verdade é que não tinha ficado particularmente impressionado com o que vira. As impressões vieram confirmar este palpite de que ia ficar satisfeito com o FP4.

Não, isto não foi uma self-fulfilling prophecy. Não se deu o caso de ter antecipado bons resultados e, ao vê-los, tê-los achado bons por me ter predisposto a julgá-los como tal. Não venho aceitar estes resultados como bons por querer por força vê-los como bons, apesar de não o serem. Podia contar com que o aspecto geral das imagens tivesse uma determinada gradação, mas não tinha possibilidade de aferir como este rolo ia resultar na OM-2 com as lentes OM. De resto, os resultados superaram as minhas expectativas. A minha experiência anterior com o Kodak T-Max – neste sim, quis por força aceitar os seus resultados como bons quando na verdade me deixaram insatisfeito – deixou-me convicto que o tipo de fotografia a que aspirava só era possível de obter se digitalizasse os negativos e os editasse. O Ilford FP4 veio mostrar-me que posso obter a gradação que quero sem recurso à digitalização e à pós-produção. E é isto mesmo que eu quero: fotografias satisfatórias sem perder tempo no computador (ou no laboratório). Com a OM-2 quero aprender a fazer bem à primeira, o que é impossível, salvo em casos fortuitos, na fotografia digital.

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O que mais me agrada neste Ilford é, como referi no texto de ontem, a sua inacreditável nitidez. Claro que, se não focar convenientemente ou se usar tempos de exposição excessivamente longos, não é o rolo que vai restituir a nitidez. A contribuição da película manifesta-se no recorte da imagem, naquilo a que chamei contrastes dinâmicos (diferenças de amplitude entre o ponto branco e o ponto negro), mas a que posso chamar, talvez com mais propriedade, contraste local ou microcontraste: aquele que é visível nos pormenores e auxilia a nitidez das texturas e das linhas que definem a forma dos objectos. Neste aspecto o Ilford supera o Kodak por uma larga margem. As lentes são determinantes – as Olympus OM têm todas elas, mesmo a 135mm-f/2.8, uma nitidez excepcional –, mas o rolo também ajuda a conferir esta percepção de nitidez da imagem.

Depois há o contraste global. Não há dúvida que o Ilford é um rolo de preto-e-branco: os pretos são mesmo pretos e os brancos mesmo brancos (estes últimos talvez o sejam um pouco demais, mas sou eu que tenho de aprender a expor diferentemente para que isto não se manifeste). Se estas imagens fossem analisadas através de histogramas, muitos teriam a forma de um «U». Será isto correcto? Para a maioria dos fotógrafos e das pessoas que vêem fotografias, provavelmente não. O ideal para estas pessoas será, talvez, uma gradação mais neutra. Simplesmente, este é o tipo de imagem que eu sempre gostei (desde que as altas luzes não estourem). As fotografias tornam-se mais vívidas, mais dinâmicas, mais interessantes.

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Acima de tudo, este rolo fez-me voltar a apreciar o preto-e-branco de uma maneira que, para minha frustração, tive de abandonar por ser impossível de reproduzir quando converto fotografias digitais para preto-e-branco. Qualquer pessoa que tente fazer esta conversão terá de limitar as suas pretensões a chegar razoavelmente perto do que um bom rolo consegue fazer; a conversão será sempre, por outras palavras, uma imitação. Uma imitação que o Nik Silver Efex denuncia ainda mais rapidamente, fazendo as fotografias em que foi aplicado parecer ainda mais falsas. Além de ser praticamente impossível obter um preto-e-branco puro nos programas de edição de imagem – e os que conseguem fazê-lo, como o Photoshop CS, dão à imagem um aspecto de fotografia velha e fora de moda –, os resultados da conversão digital nunca se assemelham à realidade de uma impressão feita a partir da película.

Não foi por acaso que a Ilford adquiriu a reputação que tem, nem é por ganância que os Ilford são rolos caros. O Ilford FP4, sendo um dos mais baratos da gama, tem um potencial verdadeiramente assustador. De facto, a sua qualidade é de tal ordem que não sinto necessidade de experimentar outros rolos. Está escrito nos astros que um dia vou tentar o Kodak Tri-X, mas só para tentar perceber o que o tornou tão aclamado. Porque encontrei, no Ilford FP4, o rolo que vou usar enquanto tiver uma câmara convencional.

M. V. M.

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