A escolha (para preto-e-branco)

Kodak T-Max 100
Kodak T-Max 100

Já experimentei que chegasse. Apesar de já ter escrito aqui que queria experimentar tantos rolos quantos me fosse possível, a paciência esgotou-se-me porque quando se experimenta não se atende ao conteúdo e quando se fotografa com intenção não há lugar a experimentações. Dos vários rolos para preto-e-branco existentes, a minha escolha circunscreveu-se a dois: o Kodak T-Max 100 e o Ilford FP4 125 Plus. Hoje fui buscar as impressões nas quais baseei a minha decisão, uma vez que as digitalizações, embora mostrem as diferenças entre os dois rolos, não permitem aferir convenientemente a qualidade da imagem.

As diferenças entre o Kodak e o Ilford surgem bastante evidentes nas impressões. O primeiro é um rolo incrivelmente competente: o grão é extremamente fino, a imagem é suave e bem definida. Seria este o rolo que eu usaria para sempre se fosse um profissional: o tipo de qualidade que o T-Max 100 garante é aquele que se espera de fotografias perfeitas, sem falhas graves que ofendam a visão de quem as contempla. E é, acima de tudo, um rolo moderno, em harmonia com os gostos fotográficos dos nossos dias.

Ilford FP4
Ilford FP4

O Ilford é muito diferente. Neste rolo o grão não é tão fino, pelo que as imagens que ele produz são mais controversas para o espectador. Isto não significa que seja um grão grosseiro, típico das velocidades altas – 125 ASA é um valor bastante baixo –, mas é suficiente para o diferenciar do Kodak T-Max. Digamos que o FP4 tem mais carácter: enquanto o Kodak procura a qualidade absoluta procurando ser neutro, o Ilford não hesita em conferir às fotografias uma apresentação distinta, desviando-se um pouco dessa neutralidade. Os contrastes são bastante mais marcados e o Ilford, um pouco graças à característica do grão, tem uma nitidez superior. Os contrastes dinâmicos são agressivos, o que significa que as altas luzes são mais pronunciadas. O Ilford FP4 não faz fotografias tão confortáveis de se ver como o Kodak, sendo menos consensual – mas estas características de nitidez e contraste tornam as fotografias mais excitantes. É um caso de love it or leave it, mas esta “personalidade” mais marcada não significa que tenha menos qualidade. Pelo contrário. Suponho que é o tipo de diferença que existe entre o aluno brilhante e certinho e o cábula capaz de genialidade, ou entre um puro-sangue e um cavalo selvagem: os primeiros geram consenso, mas os segundos suscitam reacções mais emocionais.

Não deve ser muito difícil, a quem me acompanhou até agora, adivinhar qual é a minha escolha. Devo dizer, contudo, que a decisão não é fácil, e que cada um destes rolos tem defeitos e virtudes. O Kodak origina fotografias belíssimas, mas há nele uma suavidade que lhe retira algum prazer visual. O Ilford tem aquela nitidez fantástica, coadjuvada pela natureza do grão, mas o elevado contraste de que é capaz tem o preço de as altas luzes serem mais proeminentes. Se esta tivesse de ser uma escolha imparcial, como aconteceria se estivesse a escrever um ensaio a um nível profissional, o Kodak venceria por uma unha negra: é mais barato e mais adequado a agradar a um vasto universo de interessados. Contudo, esta é uma escolha que se baseia em factores subjectivos, como desde logo o meu gosto pessoal. O Ilford confere mais carácter às fotografias, e a sua nitidez é impressionante, estando para além daquilo de que o Kodak é capaz. Decerto, alguns poderão considerá-lo mais antiquado, mais reminiscente do tipo de fotografia que se fazia nos anos 50, mas a verdade é que me é mais fácil obter resultados consistentes com o Ilford do que com o Kodak: com o T-Max 100 torna-se necessário que a cena fotografada seja ela mesma de grande contraste para produzir fotografias com o nível de contraste do Ilford – mas, quando isso acontece, os resultados são estupendos.

Depois de muita ponderação, a minha escolha vai para o Ilford FP4 125 Plus. Só porque a sua apresentação é mais conforme às minhas preferências estéticas. Quem preferir imagens mais aveludadas, com contrastes mais equilibrados e mais confortáveis de se ver, deve optar pelo Kodak – mas, para quem quer muita definição e contrastes acentuados, o Ilford vale bem a pena o dispêndio de mais 1 euro por rolo.

M. V. M.

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