Autárquicas

imagesDesculpem-me desde já. Sei que este é um blogue de fotografia e que os textos que extravasam este tema são pouco apreciados pelos leitores, mas não posso calar o que sinto quando vejo a iminência de um desastre a pairar sobre a minha cidade. O texto de hoje é sobre política, concretamente sobre as eleições autárquicas que terão lugar dentro de vinte e três dias.

Fiquei triste com o acórdão do Tribunal Constitucional sobre as candidaturas de autarcas que perfizeram mais de três mandatos numa câmara e agora concorrem a uma outra – entre os quais está Luís Filipe Menezes, candidato à câmara do Porto. Aceito a decisão dos juízes, embora não a aplauda. Deram à lei da limitação de mandatos a interpretação menos restritiva dos direitos, liberdades e garantias, como lhes competia. Não têm culpa que o texto da lei seja deliberadamente ambíguo, de maneira a permitir interpretações que esvaziam a norma de sentido e, deste modo, legitimam candidaturas de autarcas como Fernando Seara ou Luís Filipe Menezes. PS e PSD são cúmplices nesta matéria, uma vez que já deviam há muito ter promovido uma revisão da lei que clarificasse, fosse em que sentido fosse, a sua interpretação. Assim não teríamos de ter assistido a este espectáculo triste de procedimentos cautelares, sentenças contraditórias e recursos que, afinal, foram completamente inúteis.

Dito isto, lamento que Luís Filipe Menezes vá concorrer à Câmara Municipal do Porto. Em lugar de lamentar a decisão do Tribunal Constitucional, porém, prefiro lamentar a escolha deste populista desavergonhado pelo PSD e a falta de ética política que está subjacente a tal escolha. Este homem vai destruir tudo quanto Rui Rio fez de bom e agravar tudo o que este último fez de mau. Com Luís Filipe Menezes vamos ver as contas da câmara a desequilibrarem de novo, porque depois do que Menezes fez em Gaia não é de esperar que faça diferente no Porto. Nunca fui um admirador de Rui Rio, mas é mil vezes preferível ter alguém como ele à frente de uma câmara municipal do que um cacique como Luís Filipe Menezes. Com este último vai regressar a política das obras para enganar papalvos, em lugar das obras de substância; vai regressar a promiscuidade com o futebol e outras formas de favorecimento de interesses cúmplices, vamos ter de volta o esbanjar de dinheiro, a distribuição do bodo aos pobres nas vésperas das eleições, a megalomania dos grandes projectos ruinosos que o povo pagará com os seus impostos, o compadrio e os tachos atribuídos a filhos e afilhados; é de esperar, atenta a mediocridade da entourage de Luís Filipe Menezes, uma administração ineficiente, incompetente e corrupta do município e uma utilização dos cargos autárquicos para fins de promoção pessoal.

Eu não compreendo o que mais quer Luís Filipe Menezes. Talvez ele tenha percebido, depois de ter passado pela presidência do PSD, que o seu limite é ser presidente de câmara, e se agarre desesperadamente à única forma de poder que consegue exercer. Nos poucos meses em que Menezes presidiu ao PSD, mostrou que não tem qualquer tipo de aptidão para ser líder de um partido – et pour cause, que daria um péssimo primeiro-ministro se os portugueses tivessem a insensatez (ou, se preferirmos, a loucura) de entregar o poder a um partido por ele liderado. Como primeiro-ministro, Menezes seria ainda mais patético do que Santana Lopes, mas possivelmente mais perigoso. Deste modo, as ambições de poder de Menezes circunscrevem-se a ser presidente de câmara, mas isto não significa que seja um presidente capaz. Esbanjar dinheiro dos contribuintes é fácil; executar um mandato pensando no futuro e na cidade, com políticas sólidas e uma ideia para o município, observando o necessário rigor das contas e princípios éticos, não é. Por muito que não tivesse gostado de Rui Rio, foi isto mesmo que ele fez; Menezes, por seu turno, transformou o governo de uma cidade numa permanente compra de votos, de pouco lhe importando o que ficaria depois da sua passagem. Nem quero imaginar o que os eleitos para a câmara de Gaia vão descobrir depois de tomarem posse.

A vitória de Luís Filipe Menezes, a despeito de tudo isto, parece provável. Pessoalmente, não sei ainda em que partido ou candidatura vou votar, mas sei bem em quem não vou votar. Sou amigo pessoal de Manuel Pizarro, que conheço desde a minha adolescência e a quem prezo pela sua incrível inteligência e pela sua probidade, mas não vejo com bons olhos o regresso do PS à câmara do Porto. Receio que o Manuel Pizarro não tenha mão na tralha que necessariamente tentará ascender se o PS ganhar a câmara do Porto. O tipo do PCP tem ar de fanático ideológico e de intolerante e, de resto, não tem (felizmente) qualquer hipótese razoável de chegar a presidente da câmara. Não conheço o candidato do BE, e a candidatura de Nuno Cardoso é simplesmente ridícula.

Resta Rui Moreira. Decerto, a sua eleição significaria a continuação das políticas de Rui Rio, mas de uma maneira ainda mais elitista. De resto, quem escolhe uma figura como o sujeito da Associação de Bares da Zona Histórica do Porto para presidente de junta de freguesia de S. Nicolau/Sé/Miragaia (ou sejam lá quais forem as freguesias da Zona Histórica que vão ser agregadas) não me merece muita consideração política. Acresce que tive uma péssima experiência com candidaturas independentes quando apoiei Fernando Nobre, acto que deveria ter vergonha de confessar. Estas candidaturas – digo-o por experiência – escondem atrás de si o populismo e uma horda de interesseiros que, por ninguém os querer nos partidos, se procuram alcandorar a lugares de poder através destas candidaturas fátuas. E é preciso ter muito cuidado com esta gente. Pessoalmente, não tenho nada a apontar a Rui Moreira, mas depois de saber como funcionam as candidaturas independentes, fiquei de sobreaviso. Estas candidaturas são albergues para gente sem valor.

É a isto que a minha cidade está condenada. Tenho de dar a mão à palmatória e reconhecer que os doze anos de Rui Rio foram, em termos de administração autárquica, os melhores que o Porto teve. Nem tudo foi bom – o texto vai demasiado longo para estar a enumerar os vícios da câmara de Rui Rio, que não foram poucos –, mas uma coisa é certa: tudo o que ele fez de bom vai ser destruído se o povo do Porto tiver um acesso de loucura colectiva e eleger Luís Filipe Menezes.

Daí que termine com um apelo aos meus concidadãos: por favor não votem em Luís Filipe Menezes. Votem em qualquer das outras candidaturas, mas não naquela. Para nosso bem e para o bem da nossa cidade.

M. V. M.

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