As minhas coisas retro

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Não sou alguém que viva preso ao passado, mas também não sou daqueles que entendem que têm de transmitir uma imagem moderníssima e actualizadíssima e usam tudo o que é gadget e está na moda. A minha relação com os objectos que uso é muito simples: se são os melhores, ou pelo menos os que me servem melhor, uso-os independentemente do ano em que foram concebidos ou fabricados.

Isto é o que eu faço com várias actividades diárias, desde fazer a barba até ver as horas. Não o faço por querer seguir nenhuma moda retro, mas porque os objectos a que vou aludir servem-me melhor que outros mais actuais, ou, em particular no caso da fotografia, por querer ter alternativas aos bens contemporâneos. Seguindo a ordem da imagem acima, da esquerda para a direita, as minhas coisas retro são:

– Uma máquina de barbear Merkur. As Merkur são as Leica das máquinas de barbear: feitas em Solingen, capital do aço alemão, são de uma qualidade excepcional, além de, pelo menos no caso do modelo que uso, serem extremamente bonitas. A minha Merkur pode ser considerada obsoleta: a lâmina, que é daquelas de dois gumes, monta-se desapertando a cabeça da máquina de barbear, encaixando a ranhura da lâmina em três pinos, unindo as duas partes que envolvem a lâmina e apertando tudo no cabo da máquina. Claro que podia usar lâminas descartáveis, ou daquelas Gillettes de três ou quatro lâminas sobrepostas, mas não há nada como usar uma Merkur: a barba fica muito mais bem feita do que com qualquer Gillette XPTO actual. E, curiosamente, fica mais barato: uma lâmina pode durar um mês. A única maneira de a barba ficar mais bem feita é usando uma navalha, mas isto é algo que convém deixar nas mãos experientes de um barbeiro (coisa para que não tenho tempo nem dinheiro). Neste caso, uso esta tecnologia antiquada por ser a que produz os melhores resultados.

– Discos de vinil. O som dos CD nunca me convenceu, mesmo depois de comprar um leitor absolutamente estupendo como o Rega Planet que ainda uso. Em 2000 voltei a comprar discos de vinil, que reproduzo através de um Rega Planar 3 com uma cabeça Ortofon 2M Blue. O som é sensacional: os contrastes dinâmicos são muito mais nítidos, o grave é avassaladoramente melhor que nos CDs e, em geral, o som é mais aberto e tem maior claridade que o do CD. E há a parte física, ou táctil: é muito mais agradável pôr um LP a tocar, retirando-o da manga de cartão, do que meter um disquinho de policarbonato, guardado numa caixinha de plástico, num computador que lê sinais digitais. Por muito bom que o Rega Planet seja, ouvir CDs fica a alguma distância do prazer que me dá ouvir LPs. O vinil simplesmente soa melhor.

– Fotografia convencional: penso que já escrevi o suficiente sobre a Olympus OM-2n. Tudo o que escrevesse agora seria uma repetição de outros textos. Há uma analogia evidente entre as minhas câmaras e os aparelhos de reprodução musical que referi acima. E mais não digo.

– Relógio analógico. No meu caso é um Raymond Weil de corda, que me foi oferecido pelo meu pai em 1981. Funciona perfeitamente e, apesar do seu aspecto frágil, já resistiu a uma queda de um segundo andar e a um mergulho num riacho. Os relógios são o reduto que o digital ainda não conseguiu conquistar. Apesar de haver inúmeros modelos de relógios digitais, estes nunca – repito: nunca – substituirão os relógios de pulso analógicos. Apesar de todos os progressos, as pessoas continuarão sempre a associar o conceito de relógio a um mostrador redondo e dois ponteiros. O digital é interessante para quem for demasiado estúpido para ver as horas num relógio de ponteiros, mas nunca despertou, nem despertará, o interesse dos relojoeiros e do público em geral. E muito justamente. Os relógios digitais estão condenados a ficar circunscritos aos relógios de pulso baratuchos e aos mostradores das lojas dos CTT e similares.

Como vêem, não é exactamente por querer ser um nostálgico retro que uso bens como estes: é por serem intemporais. Nada substitui uma barba bem feita, a audição de discos de vinil é uma experiência que ainda não foi superada, a fotografia digital ainda tem muito que aprender com a convencional e não concebo outra maneira de ver as horas, num relógio de pulso, que não seja com recurso a ponteiros. É que as alternativas que nos propõem hoje em dia são máquinas de barbear que ficam mais caras e não resultam tão bem, ficheiros áudio que fazem com que a cassette áudio soe como se fosse o pináculo da reprodução musical, telemóveis com um arremedo de câmara fotográfica e relógios digitais de loja do chinês. Passo.

M. V. M.

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