O meu pequeno projecto

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Nos últimos dois meses tenho-me dedicado a um tipo de fotografia que me tem deixado particularmente satisfeito: deambulo pelas ruas da Zona Histórica do Porto durante horas, encontro lugares que me parecem interessantes e faço fotografias que penso poderem ser etiquetadas como «fotografia de rua». Estas fotografias incluem, naturalmente, pessoas, sejam elas homens ou mulheres, crianças, raparigas ou rapazes, velhas ou novas, feias ou bonitas. Por regra, utilizo o método que Robert Doisneau usou em muitas das suas fotografias: encontro um bom enquadramento, um local interessante, e espero que passe alguém. (Infelizmente, a maioria das pessoas que passam naqueles locais é composta por turistas, o que implica deixá-los passar – o que pode ser demorado – e esperar que passem pessoas daqueles lugares.)

Mentiria se disesse que esta é uma ideia completamente original. A vontade de fazer fotografias da minha cidade nasceu-me da admiração imensa que nutro pela fotografia de Gérard Castello-Lopes, que fotografou um Portugal autêntico e genuíno, e, como referi há pouco, sigo uma metodologia usada por Robert Doisneau, usando a paisagem urbana como palco de um pequeno teatro. Contudo, procuro sempre fugir aos lugares-comuns: dificilmente encontrarão um barco rabelo nas minhas fotografias, porque, convenhamos, fotografar barcos rabelos nada tem de original. Embora seja impossível ver todos os milhões de fotografias que são feitas naqueles lugares, penso, pela porção da realidade que consigo apreender, que não há muita gente a fotografar como eu o faço – embora possa, evidentemente, estar enganado.

Fotografar assim, durante todo este tempo, fez-me finalmente compreender qual é a essência da fotografia de rua: esta é uma fotografia que capta instantâneos da vida, pequenas histórias que acontecem todos os dias nas ruas da cidade. Mesmo que sejam histórias insignificantes, elas representam a vida da pessoas, vidas que podem ser mais ou menos ricas e interessantes, mas que valem por si enquanto narrativa da cidade. Durante estes mais de dois meses encontrei e fotografei gente a trabalhar, a relaxar, a divertir-se ou a brincar; encontrei prostitutas tentando vender prazer, jogos de sedução, conversas de intriga ou amenas, momentos de lazer, pequenos heróis precipitando-se sem medo para as águas pardas do rio a partir da ponte, miúdos e graúdos usando os corrimãos das escadas que abundam nesta zona como escorregas, gente a vender bugigangas, a pôr mesas nos restaurantes da Ribeira, transportando caixotes, grades, mesas, cadeiras, pratos e talheres; tudo isto são pormenores da vida na sua imensa e inatingível variedade.

E tudo isto procurando os melhores enquadramentos – ou aqueles que julgo serem os melhores. Por vezes o enquadramento é o mais importante, o que é uma tentação irresistível porque o Porto é cheio de lugares belíssimos; mas também fotografei o lado que não aparece nos catálogos turísticos: as ruas degradadas, quase desertas, apenas percorridas por gente tão vetusta como as casas dessas ruas; as portas e janelas emparedadas, os edifícios em ruína, a impressão de caos e imundície que se tem quando se anda em certos lugares. Não foi minha intenção fotografar bilhetes postais, cenas pitorescas da cidade: já há demasiada gente a fazê-lo. O que quis foi, acima de tudo, fotografar pessoas e coisas tal como eu as vejo. Penso que tenho conseguido fazê-lo e, a julgar pela reacção de alguns, os resultados têm sido satisfatórios.

Contudo, sinto que este é um projecto que está quase a esgotar. Não há nenhuma rua, nenhumas escadas, nenhum beco ou travessa daquela zona que eu não tenha percorrido dezenas de vezes. Das Virtudes aos Guindais, penso que não há nenhum recanto por onde não tenha passado. Noto que me repito em algumas fotografias, o que é sinal de que pode já não haver muito futuro neste tema. Claro que há sempre novas perspectivas e pessoas diferentes, mas não quero repetir-me nem imitar-me a mim mesmo. Vou continuar a andar por aqueles lugares; possivelmente o meu interesse vai acabar por desvanecer progressivamente até desaparecer. Nessa altura pensarei noutros temas, mas ficar-me-á certamente a saudade destes dias que passei a subir e descer escadas e a percorrer ruas velhas e pedregosas. Poderei, eventualmente, concluir que valeu a pena.

M. V. M.

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2 thoughts on “O meu pequeno projecto”

  1. Prezado Senhor Vilar. Prometi a mim que nunca mais comentaria nada de seu laborioso trabalho.
    É que certa vez e a única em que o fiz o senhor não o publicou embora tenha respondido subtilmente a minha observação de que entendia que a foto ou melhor a focagem estaria …enfim não o fiz por mal apenas disse o que entendia ser o que via. Quero lhe dizer que temos muito em comum e acompanho suas incursões e comentários com muito respeito e admiração. Temos em comum a paixão pela estética, pela cidade, pelas autênticidades das gentes e costumes .Também a grande “pancada” pelas máquinas olympus desta vida o senhor com a 2 eu com a 1 ,eu depois de ter uma om 10. Deambulamos e fazemos quilómetros muitas vezem já quando as pernas não aguentam e as vezes vemos coisas que nos alegram embora na maioria das vezes nos perturbem a massificação e ipadização da sociedade. Não sei ainda bem porque faço isso , mas sou compelido e enquanto tiver forças lá vou eu , sem saber o que encontrarei que magia pode acontecer e mesmo que nada aconteça posso voltar cansado mas sei que se não tivesse ido estaria pensando que a humanidade poderia perder uma grande foto, facto que aliás ainda não aconteceu….Continue em busca não desista destes cantos e ela aparecerá. Cumprimenta Luis. Ah eu também tenho gripe de vez em quando…..

    1. Caro Luís, obrigado pelo seu comentário.
      Não me recordo de ter deixado de publicar algum comentário seu. Lembro-me de ter rejeitado um comentário a que se aludia ao facto de uma fotografia estar desfocada, mas penso que era de outra pessoa – o endereço de e-mail não era o mesmo – e se não o publiquei, não foi por reagir mal às críticas, mas por causa de um erro ortográfico que, de tão grosseiro, me pareceu indigno de se publicar. (Nem mais nem menos que «parece» com c de cedilha!)
      Eu sou extremamente tolerante com comentários críticos e a regra é publicá-los todos, respondendo aos que entendo serem merecedores de uma resposta. O que não aceito é a iliteracia. Se me mandam comentários através de um smartphone, é frequente existirem erros, ou formas de escrever que são mais ou menos normais quando se comunica através desses aparelhos, como a falta de acentos; nem estes deixo de publicar. Agora, quando os erros são causados por iliteracia, não os publico. Neste aspecto sou, talvez, mais rigoroso do que devia – mas tenho menos paciência para atentados à língua do que para fotografias feitas com iPads ;) A língua portuguesa é o único património que nos restará quando finalmente nos tirarem tudo; entendo que é um dever preservá-la. Chame-lhe «mania»…
      Um abraço,
      M.

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