Profundidade de campo e abertura

Conv8

OK, OK: já percebi. Também não posso escrever sobre literatura no Número f/. O meu texto de ontem sobre 1984 foi um caso de profunda impopularidade, com zero leituras até à presente data. Definitivamente, tenho de circunscrever os temas do blogue à fotografia.

Ontem tive uma curta sessão fotográfica com a OM-2. Seis fotografias, para ser mais preciso. Só as fiz porque estava mortinho por estrear o T-Max que comprara na quarta-feira: ainda não estava recomposto da gripe e sentia-me mal fisicamente, pelo que a sessão fotográfica foi curta. A condição física não me ajudou a sentir-me inspirado, o que também explica o número escasso de exposições.

Como já começa a ser um hábito quando fotografo com a OM-2, tive grandes dificuldades em manter todos os planos em foco devido à estreiteza da profundidade de campo. Este tema da profundidade de campo é dos que se presta a mais equívocos no mundo da fotografia, em grande parte por causa da procura insensata dessa coisa a que agora se chama bokeh (uma expressão que começa a irritar-me). A minha experiência com filme de 35mm mostrou-me que a estreiteza da profundidade de campo é algo com que temos de aprender a lidar quando se fotografa. É daquelas inevitabilidades que não podemos contrariar e que temos de contornar ou usar a nosso favor. Com este tipo de equipamento é mais difícil manter a nitidez em todos os planos do que obter o chamado bokeh. Com a OM-2 é habitual recorrer a aberturas muito estreitas – digamos f/8 ou f/11, sendo habitual ter de usar f/16 –, de maneira a aumentar a profundidade de campo, e mesmo assim tenho dificuldades em evitar que algumas partes da imagem apareçam desfocadas.

A explicação para isto é extremamente simples, mas anda por aí muita gente nos fóruns e nas caixas de comentários dos sites de fotografia a tentar impingir uma teoria que é completamente falsa e facilmente desmentida pela realidade: é que o factor mais importante na determinação da profundidade de campo é a distância entre a câmara e o objecto. Esta é uma evidência que se me impõe no terreno, quando fotografo e descubro estas duas realidades: uno, modificar a abertura tem muito pouca influência na nitidez quando fotografo planos longínquos; due, este fenómeno da profundidade de campo ocorre mesmo com distâncias focais relativamente curtas, como acontece quando uso a 50mm-f/1.4. A influência da abertura na profundidade de campo apenas se manifesta quando faço close-ups, ou pelo menos quando estou bastante próximo do motivo. Quando fotografo objectos a grande distância, fotografar a f/2.8 ou a f/16 produz poucas diferenças. Pude notar isto quando, na semana passada, fotografei miúdos a atirar-se da Ponte Luiz I para o Douro: estava a uma distância de cerca de 30 metros e, mesmo com uma lente f/2.8 – a máxima que a teleobjectiva de 135mm permite –, a profundidade de campo era invariável, de pouco importando qual a abertura que seleccionei.

Em favor desta descoberta – e eu não resisto, por vício que me vem dos tempos da faculdade, a fundamentar as minhas ideias com o argumento da autoridade – milita um texto que descobri na semana passada, no The Online Photographer, da autoria de Ctein. O texto pode ser lido aqui. Como vêem, os factores que relevam para a profundidade de campo são, por esta ordem: 1) a distância entre a câmara e o motivo; 2) a distância focal da lente, e, por último, 3) a abertura.

O que noto, porém, é que muitos elegem a abertura como o factor que mais influi na profundidade de campo. Podia dizer que isto é produto de falta de informação e estar com muitos rodriguinhos politicamente correctos, mas deixem-me pôr as coisas deste modo: isto é mentira. Não o afirmo apenas por causa do texto de Ctein, mas por ter chegado a esta conclusão sozinho, graças à minha experiência com uma câmara full frame. Claro que, aos fabricantes de equipamento, convém que haja muita gente a comprar lentes caríssimas com aberturas máximas enormes, mas a verdade é que estas, sendo úteis em muitas situações fotográficas, de pouco adiantam se queremos usá-las para influenciar a profundidade de campo. Neste particular é indiferente fotografar a f/1.4 ou a f/2.8 (embora a primeira seja útil quando há pouca luz ambiente). Há toda uma publicidade à volta das lentes «rápidas» e do bokeh que é profundamente enganadora e se baseia em conceitos que em pouco ou nada correspondem à realidade, levando a que as pessoas comprem objectivas extraordinariamente caras por se terem convencido que assim vão obter melhor bokeh. Um exemplo do ridículo desta operação de lavagem cerebral é a teoria da «abertura equivalente», que chega a induzir as pessoas a comprar grandes-angulares com aberturas descomunais – quando, nas grandes-angulares, interessa manter todos os planos em foco, sendo o bokeh de evitar.

Não há qualquer ciência em fazer fotografias com muito bokeh. Fazer fotografias com nitidez aceitável em todos os planos é que é o verdadeiro desafio quando se usam formatos maiores. Com o advento de formatos como o 110 e o APS, e agora os sensores de área reduzida ou crop sensors, tornou-se mais fácil obter nitidez em toda a imagem e mais difícil conseguir o bokeh. Não admira que os recém-chegados habituados a formatos menores pensem que o bokeh é uma técnica difícil.

M. V. M.

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4 thoughts on “Profundidade de campo e abertura”

  1. MVM, da minha experiencia naif constato isso mesmo, que o bokeh (qd ouvi falar pensava que era um fetish sexual qualquer, fiquei triste quando percebi que não), depende muito de (1) distância da camara ao “alvo” conjugada com (2) distancia do alvo ao “fundo”.

    Também noto duas coisas, na minha camara M43: normalmente shooto os retratos a f2.2, senão um dos olhos fica desfocado; quando tiro fotos a uma paisagem, se o faço a mais de f5.6-f8, não consigo focar bem…

    Em todo o caso, e pergunto-te a ti que já estudaste o assunto, há ou não uma profundidade de campo equivalente? Por exemplo, para a minha lente MFT 20mm f1.7 qual é a abertura em APS que nas mesmas exactas condições dá o mesma exacta profundidade de campo? E em full frame?

    Obrigado!

    grouchomarx

    PS: WAR IS PEACE FREEDOM IS SLAVERY IGNORANCE IS STRENGTH
    :D

    1. Faltou-te escrever a última frase em novilíngua, camarada :) Vais ser evaporado!
      A questão de haver uma «abertura equivalente» é essencialmente usada pelos trolls que vão para o DPReview chatear os utentes de Panasonics e Olympus. Quando frequentei o workshop de fotografia no IPF, deu-me para perguntar ao formador, o Carlos Machado, se existia uma «abertura equivalente». Ele foi categórico: não há. A questão é que, como usamos sensores mais pequenos que o full frame, temos, perante uma dada distância focal, de nos afastar mais do motivo para obter o mesmo enquadramento, o que afecta (aumenta) a profundidade de campo ao reduzir a área em desfoque para cá e para lá do motivo. Isto não tem que ver com a abertura, mas com a distância em relação ao motivo.
      O facto de não conseguires ter os dois olhos em foco quando fotografas alguém também tem que ver com a distância em relação ao motivo, mas quando se está tão perto deste a abertura já é relevante – embora não tanto como dares uns passos para trás.
      Se quiseres, este é um caso de duplopensar: as pessoas sabem que é assim, mas como querem estar de acordo com os sábios do DPReview, afirmam o contrário em público.
      Agora pensa nisto: se estas teorias da «abertura equivalente» fossem verdadeiras, quando fotografasses a f/22 estarias, na verdade, a fotografar a f/44!!! Absurdo, não é?
      Abraço,
      M. V. M.

      1. Faltou-me referir as dificuldades que apontas em fotografar paisagens: em sensores como os nossos (4/3), a difracção começa a manifestar-se muito cedo. É possível que as tuas dificuldades tenham que ver com este fenómeno.

  2. Olá… Cá estou de volta das minhas (espero que merecidas) férias. Concordo plenamente que o a distância ao alvo é um factor fundamental na profundidade de campo. Isso é fácil de ver nas lentes antigas. Por exemplo, na minha F.Zuiko 50mm f1.8, com a abertura a f4, a indicação na lente mostra que quando foco a uma distância de 1,5 m, estarão focados os objecto a distâncias entre os 1,4 e os 1,6 m (mais coisa menos coisa, que a escala na lente passa do 1 para o 1,5 para o 2). Se a distância a que foco já for de 5 m, o intervalo de distância passa dos 4 para os 6,5 m (novamente, de forma aproximada). Também se verifica que quanto menor a abertura (maior f), maior será o intervalo. Suponho que o comportamento das lentes mais recentes seja semelhante… Nem é preciso tirar fotografias, basta olhar para o equipameto… Obviamente que a minha experiência a tirar fotografias comprova este comportamento.

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