1984

1984-Big-BrotherEstou a acabar de ler aquele que é talvez o livro mais espantoso que já li – e, acreditem ou não, já li muitos, alguns dos quais estão entre os mais preciosos bens imateriais da humanidade. A Montanha Mágica, de Thomas Mann; A Condição Humana, de André Malraux; O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil; a Ilíada e a Odisseia, de Homero, são algumas das melhores obras da literatura universal. E eu li-as. À excepção dos poemas épicos gregos, os livros que referi são meditações exaustivas sobre o Homem, em particular sobre a sua vida e a sua alteridade, a sua relação com o Outro. Cada uma destas obras incorpora o pensamento, vigente nas respectivas épocas, adoptado pelos seus autores: todos eles são influenciados pelas correntes filosóficas que prevaleceram no continente europeu durante a primeira metade do Século XX e, se nos dois escritores de língua alemã não há um comprometimento político-ideológico evidente, já na obra de Malraux este é evidente, embora não tão óbvio como poderia parecer, a um leitor que não estivesse a par do contexto vivido por Malraux, a partir da narrativa. (André Malraux não era um maoísta.)

Obras como estas são discursos filosóficos antes de serem romances ou novelas. São descrições da sociedade tal como com ela interagem seres inseridos num determinado contexto e constituem análises de uma determinada conjuntura: Hans Castorp representa a Alemanha do início do Século XX; Ulrich é o estereótipo criado por Musil do homem moderno; e os revolucionários chineses simbolizam, como o título indica, sem necessidade de mais explicações, a condição humana. São, deste modo, obras típicas do pensamento europeu continental, caracterizadas por uma linguagem impregnada de uma simbologia subtil que nem sempre é evidente para o leitor.

Não assim com o livro que estou a acabar de ler. George Orwell, pseudónimo literário de Eric Arthur Blair, construiu uma alegoria carregada de uma simbologia poderosa com o seu 1984, mas, uma vez decifrados os significados patentes nesta obra, o que temos é violento, brutal, incómodo e cruel, com recurso a uma linguagem inteiramente despida de subtilezas. Por vezes tendemos a tomar o pragmatismo e utilitarismo que todos os autores e filósofos britânicos cultivaram como emanações de um pensamento menor, julgando que é no continente – em particular na Alemanha e na França – que está concentrado o pensamento filosófico e literário europeu, sendo os britânicos pertencentes a uma categoria acessória ou marginal que se ocupa do prático e do comezinho. Este tipo de desprezo, carregado de alguma arrogância, é completamente desprovido de qualquer sentido. Os autores britânicos são tão inteligentes, profundos, penetrantes, lúcidos e clarividentes como os continentais: o que são é mais directos.

1984 é assustador porque o que lemos ali está a acontecer aqui e agora: o despojamento de qualquer vontade e pensamento próprios dos que são submetidos ao regime político estão a acontecer, embora o poder se tenha transferido, já depois de Orwell ter escrito 1984, da esfera do político para a do económico. Os meios de manipulação e controlo de que o Partido lança mão correspondem ao que vivemos na nossa sociedade hipervigiada, na qual ideias como a privacidade e a liberdade não passam de mentiras. 1984 é uma distopia: descreve uma sociedade odiosa e desprezível. 1984 assusta por ser inteiramente lógico: ao lê-lo, estamos a ver as raízes sobre as quais assenta o poder totalitário e vemos que a evolução que se deu até aos nossos dias é uma consequência do que Orwell denunciou com esta obra. Alguns cometem o erro apressado de, através de uma apreciação superficial, imaginar que 1984 é um libelo contra o regime soviético. Nada mais errado. 1984 tem por temática o domínio total do poder sobre a pessoa humana, visando, de uma forma que nenhum outro totalitarismo conseguiu, a completa obliteração da identidade individual em favor da perpetuação do poder, e os meios de conseguir essa anulação da personalidade. Isto não é exclusivo do totalitarismo soviético,

Esta obra contém a análise mais penetrante e completa do poder político que alguma vez foi escrita na ficção literária (fora da literatura académica e da ensaística). A narrativa, ou o enredo, é de uma simplicidade extrema, mas a verdade é que não é importante: é apenas um pretexto ou, se quisermos, uma imposição formal ditada pela vontade de apresentar a obra como um romance, e não como um ensaio. (Aliás, não compreendo por que alguém caiu na estultícia de realizar um filme baseado nesta obra.) O que importa, em 1984, é o seu carácter premonitório e clarividente, consequência de uma análise inacreditavelmente penetrante de um autor que, tendo estudado o passado e analisado o presente em que viveu, conseguiu extrapolar o futuro. Não há nada de esotérico aqui: George Orwell conviveu de perto com aprendizes de ditadores e com ditaduras, conhecendo bem os métodos de obtenção e manutenção do poder através da manipulação e do controlo das massas. Conheceu bem os mecanismos da manipulação, as mentiras e os logros sob os quais os aspirantes ao poder sempre se apresentaram para a ele ascenderem, com o apoio daqueles em cujo nome agiram, mas que, uma vez concretizados os seus propósitos, de imediato subjugam e oprimem. (E ninguém pense que não é isto o que acontece nas «democracias ocidentais».)

A análise dos sistemas de poder é, aliás, uma das características mais fascinantes de 1984. Na narrativa, a personagem Winston Smith conhece uma outra, O’Brien, que o induz a juntar-se a uma pretensa Fraternidade, que combate o Partido e o sistema do Ingsoc (neologismo de «socialismo inglês»); o último rito iniciático consiste na leitura de um livro, passado secretamente a Winston, denominado, singelamente, «o livro», da autoria de uma outra personagem de nome Emmanuel Goldstein. George Orwell escreveu várias páginas de 1984 como se transcrevesse excertos do Livro. Estas páginas constituem uma análise que é, pura e simplesmente, a mais lúcida que já li acerca do poder político. Orwell foi um homem de uma argúcia e lucidez raras. (Alguns dos leitores poderão ter sido obrigados a ler Animal Farm no 12.º Ano; pois bem, 1984 é Animal Farm analisado, decomposto e estendido até ao paroxismo e levado às últimas consequências.)

Sei que muitos poderão imaginar que 1984 é literatura menor ou secundária; alguns poderão mesmo evitar este livro por causa da sua conotação com um reality show televisivo. Simplesmente, aconselho a não manterem esse preconceito. Se o fizerem, estarão a deixar que vos passe ao lado uma das mais prodigiosas emanações do pensamento universal.

M. V. M.

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