O que eu penso agora sobre as CSC

GX7k_front_H_H020AA aquisição da minha OM-2n veio pôr a E-P1 debaixo de uma luz que nem sempre é favorável. A comparação entre as duas câmaras, esquecendo a forma como ambas gravam as imagens, abriu-me os olhos para os problemas inerentes ao seu formato e para alguns dos vícios em que a indústria fotográfica tem vindo a incorrer já desde o tempo da fotografia convencional.

O pior desses vícios é a ideia estúpida de minimizar a área de captação da luz. Isto não surgiu na era digital, uma vez que já anteriormente havia os filmes 110 e APS. O primeiro era (é: a Lomography ainda faz câmaras e rolos deste formato) simplesmente deplorável, e o APS surgiu numa época em que a fotografia convencional começava já a dar sinais de declínio. É possível que tenha passado pela mente de algumas pessoas que a miniaturização dos fotogramas poderia ter o mesmo impacto na indústria que a invenção do formato 35mm, mas esta foi uma ideia disparatada porque o 35mm veio libertar a comunidade fotográfica de câmaras gigantescas que requeriam um automóvel para ser transportadas, estabelecendo-se por permitir fabricar câmaras pequenas e práticas; reduzir o tamanho das câmaras mantendo sensores de área grande é possível, como o provam as Leica M e, sobretudo, a Sony RX1, mas há sempre um limite físico se se quiser manter a qualidade, porque diminuir ainda mais a área sensível à luz tem repercussões na qualidade da imagem.

Um sensor de área diminuta tem muitas desvantagens: não pode acomodar tantos pixéis sem aumento do ruído, o que resulta numa diminuição da qualidade da imagem; a gama dinâmica é limitada, pelo que as altas luzes e as sombras não são apresentadas como deviam, e a profundidade de campo é mais extensa, o que, se tem a vantagem de tornar mais fácil obter nitidez em todos os planos da imagem, é um limite à utilização da focagem e à obtenção de efeitos criativos.

É evidente que esta redução da área sensível à luz teve o propósito de fazer câmaras cada vez mais pequenas e baratas para agradar a consumidores que queriam andar sempre com uma câmara no bolso. Um propósito que a fotografia digital facilitou ao eliminar os mecanismos necessários nas câmaras convencionais para alojar e mover o rolo. Estabeleceu-se instantaneamente uma divisão entre as compactas e as DSLR – a maioria das quais com sensores de área inspirada na do APS, consideravelmente inferior à do full frame –, nada havendo pelo meio. Isto significava que o consumidor, a quem foi feita uma lavagem cerebral para aceitar uma diminuição drástica da qualidade da imagem para aceitar as deficiências das primeiras câmaras digitais, teria de se conformar com uma câmara pequena e sem qualidade se não estivesse disposto a comprar uma reflex. Porque tudo o que havia era compactas e DSLRs.

O fosso que existia entre compactas sem qualidade e as DSLR, que eram a referência em qualidade de imagem nas câmaras destinadas aos consumidores, foi finalmente coberto pelas chamadas CSC, ou mirrorless, mas os construtores insistiram em sensores de área reduzida para equipar as suas câmaras sem-espelho. Isto, a par da insistência dos fabricantes de câmaras reflex em equipá-las com sensores pequenos – entre os quais predomina o APS-C –, significa algo muito simples: os esforços da indústria fotográfica foram orientados no sentido errado. Em lugar de procurarem mais qualidade, deram-nos câmaras mais pequenas (o que é um belo negócio, mas para os fabricantes, não para os consumidores) e continuaram a insistir na abundância de megapixéis (que ainda impressionam alguns incautos) e em valores de sensibilidade irrealistas, por força de uma multidão de consumidores que é mais sensível aos números do que às qualidades reais do equipamento. Os problemas de gama dinâmica e de precisão na definição das cores (entre outros) continuam por resolver, fazendo com que não tenha havido ainda uma superação, com o digital, dos resultados que podem ser obtidos com equipamento convencional de qualidade. Mesmo as DSLR full frame continuam a estourar as altas luzes e a ter uma reprodução deficiente das cores (embora o equilíbrio dos brancos ajude a conseguir bons resultados quanto a este último aspecto).

As CSC, que têm ainda o defeito de só poderem ser equipados com visores electrónicos – embora algumas proponham visores ópticos, estes são de uso limitado –, são boas, ou mesmo excelentes, para certas utilizações, mas têm muitos limites. Apesar desses limites – sendo muitos deles comungados com as reflex, para dizer a verdade –, as CSC são propostas muito interessantes. Algumas delas têm uma estética irresistível, o que não acontece com as reflex actuais. São também mais pequenas e leves, mas esta vantagem rapidamente se converte numa desvantagem quando se montam lentes volumosas porque os corpos, com algumas excepções, são pouco ergonómicos. A sua qualidade de imagem é boa, mas os fabricantes tendem a suprir as deficiências da imagem através de um processamento excessivo das imagens JPEG pelo processador da câmara, com uma nitidez artificial e parâmetros agressivos de redução do ruído. Em termos de mercado, As CSC estão num limbo: demasiado complexas e sofisticadas para pessoas que têm por hábito usar compactas e telemóveis para fotografar, demasiado limitadas para os utilizadores de DSLRs. De resto, os seus sensores de área reduzida levam a que os construtores, procurando satisfazer a procura de maior qualidade, produzam lentes de aberturas amplas e custo elevado, o que encarece o sistema e o aproxima dos preços das reflex. Não surpreende que as vendas das CSC, depois de um período ascendente, estejam a estagnar, ou mesmo a decair.

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E eis que a Olympus se prepara para insistir, uma vez mais, no erro de apresentar uma câmara que vai ser muito cara para a qualidade de imagem que pode oferecer: a E-M1, que foi mostrada «por engano» num vídeo no sábado passado, no website engadget, o qual foi retirado logo de seguida (mas ficaram os milhares de hiperligações e de imagens colhidas do vídeo: como operação de marketing foi genial). Não faz qualquer sentido apresentar como «de nível profissional» uma câmara que tem problemas de qualidade de imagem inerentes ao formato escolhido: apesar de a qualidade de imagem dos sensores 4/3 recentes ser mais que aceitável, nunca estará ao nível do full frame: nunca terá a mesma gama dinâmica, terá sempre mais ruído – por muito que o processador o procure disfarçar com a redução do ruído – e uma profundidade de campo muito ampla que só pode ser compensada com lentes de grande abertura máxima e extremamente caras.

Resta-nos esperar pela Sony que, ao que se diz, vai apresentar, ainda este ano, uma CSC equipada com sensor full frame. Suspeito, contudo, que o seu preço – ao qual acrescem as lentes – a torne proibitiva. Pelo menos nos primeiros tempos. Pode acontecer que, com a pressão dos consumidores para obterem câmaras com sensores de área grande (embora esta pressão nem sempre surja pelos motivos correctos), os sensores de 36x24mm se tornem tão populares como o filme de 35mm era nos seus dias de glória. (Mas faltará sempre um visor óptico que mostre o mesmo que a lente está a ver…)

M. V. M.

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