Falhar uma fotografia

Foi mais ou menos assim que reagi à minha asneira de hoje
Eu ontem de tarde, junto à Ponte Luiz I, depois de falhar clamorosamente uma fotografia

Um dos maiores benefícios da fotografia digital é a capacidade de memória do dispositivo de armazenamento. Quando esvazio o meu cartão de memória, fico com a faculdade de registar 1072 imagens em formato Raw. Com uma capacidade destas, tenho a possibilidade de fazer tudo o que me apetecer, desde disparos contínuos a tentar todos os ângulos possíveis de um determinado motivo. E posso fazê-lo sem gastar dinheiro, exceptuada a despesa com a aquisição do cartão de memória, e sem ser afligido pela sensação de desperdício.

Com um rolo não é bem assim. Claro que podia, desde que tivesse capacidade financeira para tanto, esgotar um rolo – ou mais – num só dia, mas a verdade é que este seria um caminho ruinoso e que, mesmo que estivesse disposto a substituir rolos a meio de uma sessão fotográfica (o que tem vários inconvenientes), não seria possível contornar o facto de estar limitado a trinta e seis fotogramas por rolo. Como não penso fazer sessões fotográficas em que use vários rolos – o meu recorde a completar um rolo de 36 fotogramas é de quatro dias –, cada fotografia feita com a OM-2 é preciosa, algo que não posso de forma alguma desperdiçar.

Esta contingência não deixa de ter vantagens. Com um rolo tenho de pensar melhor a exposição, o enquadramento e, como não podia deixar de ser, a temática. Na fotografia convencional não pode haver lugar ao erro e à experimentação que a fotografia digital permite. O conceito de fazer tudo bem à primeira, que é praticamente inexistente na fotografia digital, torna-se num imperativo absoluto quando se fotografa para uma película de 35mm.

Daí que uma fotografia falhada seja muito mais dolorosa. Domingo, 18 de Agosto de 2013, véspera do Dia Mundial da Fotografia: o M. V. M., vosso escriba, foi até à Ribeira gastar os últimos fotogramas do rolo Ilford FP4 Plus, munido da OM-2 e da poderosa Olympus 135mm-f/2.8, com o propósito de fotografar os putos que se atiram da Ponte Luiz I. Um tema absolutamente fantástico, mas que levanta algumas dificuldades. A exposição, antes de mais: ou meço a exposição na estrutura escura da ponte ou no céu, o que leva a que, no primeiro caso, as altas luzes se tornem proeminentes, ou, no segundo, corra o risco de a fotografia ficar subexposta. (Como não é aconselhável obter compromissos inventando valores de exposição intermédios, optei por medir a exposição no céu dando 1/3 EV de compensação.) Outro desafio é obter um tempo de exposição suficientemente curto para congelar a acção quando se tem muita luminosidade e apenas 1/1000, mas como o rolo é muito mais tolerante às altas luzes, este não é um problema: pude fotografar confortavelmente a f/4, e penso mesmo que usei f/2.8 com algum sucesso numa das fotografias. A maior dificuldade, porém, era mesmo captar o momento decisivo: decorre apenas um segundo entre o instante em que os miúdos saltam e aquele em que desaparecem do enquadramento. O disparo tem de ser feito dentro daquele segundo; uma fracção de segundo mais tarde, e a fotografia falhará.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Tinha apenas quatro fotogramas. Consegui um bom enquadramento em dois deles – embora só o possa confirmar quando vir as revelações –, e penso que um dos miúdos ficou enquadrado, mas ligeiramente abaixo do que queria, num outro, em que também apanhei acidentalmente uma porção do muro da antiga Ponte das Barcas. Restava-me um fotograma. O próximo miúdo a saltar era uma rapariga que já tinha fotografado, com algum sucesso, no ano passado. Confirmei a exposição e o enquadramento e esperei pacientemente que a miúda saltasse. As fotografias anteriores correram bem, pelo que usei o mesmo método para esta última exposição. Nada podia correr mal: previ tudo de maneira a eliminar a possibilidade de erro, mas…

Ocorreu um imprevisto. Ao contrário de todos os outros saltadores, a rapariga tomou balanço com um salto ascendente. O enquadramento que escolhi incluía o tabuleiro na parte superior da imagem e uma porção vasta do rio ocupando os dois terços inferiores da imagem. Com o seu salto, apenas metade do corpo da rapariga apareceu no enquadramento. Disparei demasiado cedo porque não previra esta circunstância. Não foi um balde de água fria (que, com o calor que estava, até poderia ter sido bem-vindo): foi como se me tivessem espetado uma faca nas costelas. Um daqueles facalhões de cozinha, com a lâmina romba.

Agora tenho vergonha de mandar revelar o rolo, apesar de ter consciência de que muitas das fotografias ficaram bastante razoáveis e de ter enormes expectativas quanto às qualidades do Ilford FP4. Um dos males de ser crítico e exigente comigo mesmo é este: não tolero um fracasso. Não é caso para hara-kiri, mas anda lá perto. Fiquei com uma sensação de angústia que faria Soeren Kierkegaard rever todos os seus conceitos. Oh well…

M. V. M.

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