Muito com pouco

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Ler comentários a artigos sobre a Olympus no Digital Photography Review é um desafio ao normal funcionamento dos órgãos do aparelho digestivo. Não há um único destes artigos que não seja infestado por comentários depreciativos acerca das câmaras e lentes desta marca, mesmo que o texto tenha por tema os relatórios de vendas ou de actividades financeiras: há sempre gente a proferir comentários completamente ignorantes e disparatados por causa dos sensores usados pela Olympus nas suas Pen. Estes espaços de comentários são os lugares privilegiados dos patetas que acreditam nas teorias da «abertura equivalente» e outros disparates em que crêem de uma maneira que pode ser equiparada à superstição.

Estes comentários nunca conseguem deixar de me irritar. Como tenho uma destas câmaras, imagino que os cabeças de vento que fazem estas apreciações nunca fotografaram com uma Olympus, já que as suas opiniões são tão disparatadas que não têm qualquer ponto de contacto com a realidade. Dizem que um sensor tão pequeno não pode ter uma boa profundidade de campo, que aquelas câmaras são incapazes de fotografar motivos em movimento e que as imagens feitas com as Pen não têm qualidade. Entre outras coisas. Curiosamente, raramente referem as dificuldades destas câmaras nas altas luzes – talvez porque nunca experimentaram nenhuma.

Algumas críticas têm fundamento. A Olympus anda há onze anos a lavrar um terreno árido com os seus sensores 4/3, nos quais insiste de uma maneira ainda mais teimosa do que quando se recusou a aderir à focagem automática. As Pen, com excepção das mais recentes, têm um problema severo de gama dinâmica, que nem a tecnologia SAT (Shadow Adjustment Technology), que de resto só funciona com JPEGs, pode resolver. O problema da Olympus é estar amarrada aos sensores 4/3, depois de todo o investimento que fizeram ao longo destes onze anos. Se a Olympus se decidisse por sensores de formato 36x24mm, teria de investir fortemente em lentes novas: nunca conseguiria competir com a Canon e a Nikon, porque teria sempre chegado ao mercado tarde demais. Resta-lhe, deste modo, insistir no 4/3; como este formato é insuficiente para competir no segmento das DSLR, no qual encontra a concorrência de câmaras como a Nikon D600, a Canon 7D ou mesmo a Sigma SD1, a Olympus virou-se para as CSCs, abandonando quase por completo as pessoas que gastaram fortunas com as lentes 4/3 – e mesmo assim os resultados não são lá muito bons, uma vez que as Pen tiveram um decréscimo de 12% nas vendas do primeiro quadrimestre deste ano. E, a menos que os preços da E-P5 e da E-M5 baixem substancialmente, as coisas ainda vão piorar quando a Panasonic GX7 começar a vender.

Daqui a negar a qualidade das Pen com base numa pseudociência que se reduz a um punhado de disparates papagueados ad nauseam na Internet vai um enorme passo. Agora que tenho uma câmara full frame – sendo pouco relevante que grave imagens em película –, apercebo-me melhor dos problemas de um sensor de área reduzida e ser-me-ia fácil desdenhar a minha E-P1, mas não o faço. Por uma razão simples: esta câmara, a despeito do seu sensor limitado, é capaz de imagens maravilhosas. Mesmo se as limitações da câmara são evidentes, elas não pesam mais que 10 ou 15% na apreciação geral que faço da sua qualidade. Não são defeitos que me impeçam de fazer boas fotografias.

Há quem não compreenda que o limite da fotografia não é necessáriamente imposto pelo equipamento. As limitações deste último só se repercutem na qualidade das fotografias se o material for decididamente mau, como as compactas e os telemóveis. Uma grande parte do gozo de fotografar consiste em ultrapassar as limitações do equipamento e pô-lo a fazer o que nós queremos (alguns nunca perceberão isto). O limite da fotografia está na nossa aptidão para lidar com o equipamento, superar as suas limitações e fazer muito com pouco. É muito mais recompensador fazer uma fotografia bem sucedida com uma câmara limitada do que com uma supercâmara. A E-P1 não me impede de fazer fotografias com focagem selectiva, nunca foi um obstáculo a fazer fotografia de motivos em movimento (pelo contrário, é excelente para fazer pannings) nem me recusa uma boa qualidade de imagem.

Acima de tudo, o importante é ter uma intenção fotográfica e saber usar os recursos técnicos para a exprimir. O resto não é importante. Claro que há aplicações que exigem o melhor equipamento disponível, mas estes casos são do domínio da fotografia profissional. Não são para comuns mortais como eu. Podem dizer-me mil vezes que a minha câmara não presta, mas não é isto que as minhas fotografias dizem sobre ela. O equipamento é importante, mas não tanto como as fotografias.

M. V. M.

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1 thought on “Muito com pouco”

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