Carta de condução

253_Untitled-2De hoje a três semanas completo meio século sobre esta Terra. Normalmente não penso muito nestas coisas, mas aconteceu-me uma daquelas revelações que têm o impacto de uma bola de demolição atingindo-me na cabeça. Foi quando me propus revalidar a minha carta de condução que percebi que sou oficialmente velho. A autoridade administrativa que tutela as coisas rodoviárias, ou o legislador que alterou as idades para a renovação da carta, é do entender que aos cinquenta já somos velhos e alquebrados, e que as nossas funções psíquicas, físicas e psicomotoras são já insuficientes para conduzir um automóvel na via pública. Podia ser pior: se eu tivesse uma carta da categoria C, teria de me submeter a testes psíquicos. (A verdade é que, com a quantidade de tarados que andam por aí a conduzir veículos ligeiros, talvez não fosse má ideia alargar esses testes às categorias mais, hmm, ligeiras.)

Agora que sou oficialmente um velho, incapaz de me sentar num automóvel sem que o reumatismo me tolha os movimentos e sem que a demência senil me faça esquecer o significado dos sinais de trânsito, é altura de pensar na minha vida. Neste momento a minha carreira profissional pode ser sintetizada pela expressão anglófona going nowhere. As pessoas preferem renunciar aos seus direitos a pagar honorários e custas judiciais e o mercado está completamente dominado pelos grandes escritórios. Já pensei em fazer outra licenciatura e mudar completamente a minha vida: a arquitectura seria algo em que poderia sentir alguma realização, mas o mercado da arquitectura está exactamente igual ao da advocacia, com os jovens licenciados a servir de mão-de-obra barata para os grandes gabinetes. E a fotografia? Alguns poderiam sugeri-la como uma boa saída profissional, mas não é: para onde quer que um profissional da fotografia se vire, encontra sempre uma legião de idiotas munidos de iPhones, dispostos a oferecer as suas fotografias a troco de verem os seus nomes mencionados num website. É nos casamentos, é nas reportagens, é em todos os lugares onde dantes a presença de um profissional era requerida. Abrir uma loja de fotografia poderia ser boa ideia, mas precisaria de capital e de conhecer gente bem relacionada no mercado fotográfico. (Conheço alguma, mas seriam os meus futuros concorrentes e não os estou a ver a dar-me a mão; tudo bem – no lugar deles provavelmente faria o mesmo.) Podia vender impressões, mas quem é que as compraria? De resto, que diriam as pessoas quando vissem o meu equipamento, do qual não consta nenhuma Canon nem nenhuma Nikon?

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Outro assunto: talvez por ver o lar da terceira idade cada vez mais próximo, tem-me dado para revisitar a música da minha juventude: Love and Rockets, Joy Division, Killing Joke e outras coisas (algumas mais recentes, como os Charlatans, Slowdive, Beck ou The Boo Radleys). Tudo isto me parece pechisbeque (1) comparado com um Schumann ou um Anton Bruckner, mas a música pop tem esta característica de servir de banda sonora das nossas vidas. Tenho andado a tentar estabelecer, de uma vez por todas, qual a melhor canção dos Joy Division. Love Will Tear Us Apart está excluída por ser tão óbvia, e Atmosphere vai quase pelo mesmo caminho, embora haja nela uma qualidade verdadeiramente imortal e intemporal (e pese o vídeo realizado por Anton Corbijn ser espantoso). Hesito entre Transmission, que foi a primeira que conheci – em 1980, para verem o fóssil que eu sou –, Shadow Play, Twenty Four Hours, Passover, Heart and Soul, Dead Souls e Day of the Lords. Talvez as coisas se resumam a Shadow Play e a Day of the Lords; a primeira faz-me ver como Bernhard Albrecht (ou Bernard Sumner, ou Bernard Dicken) era um guitarrista extraordinário; na segunda, agrada-me o dramatismo e o ambiente negro e asfixiante a ser rompido pela voz de Curtis. E convém não esquecer que esta foi uma das canções mais influentes de sempre, por ter aberto o caminho ao gótico de bandas como Bauhaus, The Sisters of Mercy e Fields of the Nephilim.

Chega. Está uma noite fantástica de Verão e não me apetece deixar-me mergulhar em pensamentos soturnos. Creio que hoje só escrevi este texto por me faltar assunto para escrever sobre fotografia. Amanhã lembrar-me-ei de qualquer coisa mais pertinente. Talvez.

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(1) Eu tenho de deixar de usar esta palavra horrível. «Pechisbeque» tem a sua origem no tempo da Rainha D.ª Amélia; esta soberana portuguesa encomendou diversas jóias a um ourives francês de nome Pierre-Xavier Beck, que lhe fora aconselhado por uma nobre francesa. Quando recebeu as jóias que encomendara, que custaram uma fortuna considerável ao povo português, a Rainha descobriu que as jóias eram falsas: em lugar de ouro, foi usado latão; e vidro, em vez de diamantes. As jóias falsas foram, numa manifestação de cinismo e impudência, assinadas pelo falsário, que gravara no latão o nome «P. X. Beck». A partir deste episódio, «P. X. Beck» (depois aportuguesado para «pechisbeque») passou a designar qualquer jóia falsa, quinquilharia ou imitação.

M. V. M.

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