Acto de contrição

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Eu não devia ser críptico quando abordo certos temas. Sempre que escrevo algo que considero ser uma opinião definitiva, deparo mais tarde com factos que contrariam o que escrevi. Sou demasiado novo e inexperiente na fotografia, pelo que não devo ter pretensões de estabelecer o que é verdadeiro ou não nem ser preconceituoso; devo, pelo contrário, manter os olhos abertos e ser receptivo a tudo o que me circunda.

Aconteceu-me, por exemplo, com os textos apologéticos que escrevi sobre o formato micro 4/3, que vejo agora ser demasiado limitado para poder aspirar a determinados padrões de qualidade. Penso que posso, sem incorrer em imodéstia, dizer que algumas das minhas fotografias podem servir para ilustrar o nível de resultados que pode ser atingido com este formato, mas fotografar com a Olympus OM-2 lançou uma sombra muito negra sobre o formato micro 4/3. Também escrevi muitos disparates sobre a inutilidade do raw, que agora uso em exclusivo quando fotografo com a E-P1. Devia ter tido sempre em mente que não é possível formar opiniões definitivas sem conhecer a imensa variedade de tudo aquilo sobre o que me propus escrever e sem ter o conhecimento de todos os lados desse polígono multifacetado que é o mundo da fotografia. Nada é definitivo, nem posso ter a pretensão de estabelecer uma opinião como sendo a última palavra sobre seja o que for. Há sempre factos ulteriores que derrogam estas palavras definitivas. As poucas certezas que tenho podem ter fundamentos sãos, porque tenho espírito crítico suficiente para as provar, mas dediquei-me a um tema no qual não há verdades absolutas, pelo que convém não ser demasiado assertivo.

Do mesmo modo, não devo dizer nunca. Sempre que o disse, acabei por fazer o contrário. Lembro-me de ter escrito alguns disparates sobre a falta de carácter prático da fotografia «analógica» e a beleza da gratificação instantânea da fotografia digital, que me levaria a nunca comprar uma câmara de rolo – e hoje fotografo com uma câmara convencional, por ter descoberto que ver imediatamente os resultados de uma fotografia e tratá-la no computador não é, por si só, suficiente para determinar a superioridade do digital. Um hamburger da McDonald’s também é muito prático, mas não substitui uns bons rojões à moda do Minho pelos quais se tem de esperar mais de meia hora num restaurante.

Tudo isto vem a propósito do texto de domingo sobre a digitalização de rolos. Hoje fui levar o meu terceiro rolo, um Kodak T-Max a preto-e-branco, para revelar. Não fui à Câmaras & Companhia, apesar de estar mais que satisfeito com o trabalho de Raul Sá Dantas; a cem metros desta loja existe uma outra, de nome Máquinas de Outros Tempos, do jovem Pedro Viterbo, que conheci numa sessão de fotografia na feira da Vandoma depois de ter descoberto a sua banca cheia de câmaras usadas. Devo dizer que simpatizei de imediato com o Pedro Viterbo e que a sua dedicação ao equipamento convencional é admirável; deste modo, propus-me entregar-lhe o rolo.

Algo não correu como eu esperava. A Máquinas de Outros Tempos não faz impressões. Ou revela apenas, ou revela e digitaliza. Quem me lê sabe que eu prezo as impressões e as considero o destino último de cada fotografia. Encomendar apenas a revelação para depois mandar imprimir noutro lugar pareceu-me ainda mais confrangedor do que ter as digitalizações. Ao saber do custo da digitalização do rolo, não tive grandes dúvidas – mandei revelar e digitalizar.

Isto vai contra tudo o que escrevi no texto anterior, mas o que ali disse mantém-se no essencial: a fotografia convencional digitalizada é uma contradição nos termos. E a minha opinião sobre as impressões também se mantém. Contudo, pode acontecer que as digitalizações me deixem satisfeito. De resto, se alguma das fotografias deste rolo me deixar satisfeito, poderei sempre encomendar impressões.

Uma coisa é certa: se usar estas digitalizações para ilustrar os textos do Número f/, os leitores vão ficar com uma ideia muito mais próxima daquilo que a OM-2 é capaz de fazer pelas minhas fotografias. As digitalizações caseiras que apresentei não dão mais do que um indício muito ténue sobre a qualidade da impressão de fotogramas «analógicos». Ao menos esse benefício a digitalização há-de ter. Se não tiver outros. Não quero ser demasiado peremptório sobre este assunto. Nem sobre nenhum outro. Não é impossível que fique extremamente satisfeito por ter optado pela digitalização, apesar de preferir a materialidade das impressões.

M. V. M.

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