Nem tudo foi mau

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O texto de ontem foi muito ácido. Escrevi-o propositadamente a quente, porque quis exprimir o que senti, mas as palavras que usei não traduzem, nem de perto nem de longe, a frustração que experimentei ao ver o péssimo trabalho que fizeram com a revelação e, sobretudo, com o corte. (A propósito, fiquei a saber que tenho de deixar sempre uma pequena margem em torno da imagem, sob o risco de ficarem cortadas partes importantes desta, porque o corte das fotografias não corresponde às dimensões do fotograma, que são 36 x 24. Viver e aprender.) Contudo, nem tudo foi mau: ver as fotografias imprimidas teve as suas compensações.

Comecemos pelo aspecto técnico: não falhei uma única focagem. É certo que é extremamente fácil focar com a OM-2n, graças ao ecrã de focagem, e que já tenho alguma experiência de focagem manual, sendo que obter uma nitidez absoluta com a E-P1 é mais difícil do que aquilo que a função MF Assist, que amplia uma porção da imagem 7 ou 10 vezes, pode levar alguém a pensar. Também não tive dificuldade em atinar com a exposição correcta, o que poderia ser um problema bem mais sério do que a focagem, nem em enquadrar. Seria difícil ter problemas em enquadrar com um visor com a qualidade do da OM-2: seria uma manifestação de inépcia completa.

Chega de técnica. Tenho a impressão de que já me estou a repetir ao referir certos assuntos técnicos relacionados com a minha experiência com a fotografia convencional. O que as minhas fotografias me mostraram foi aquilo que as fotografias a preto-e-branco devem ter: um excelente equilíbrio tonal e um bom contraste. Neste último aspecto poderia ir mais longe se comprasse o célebre Kodak Tri-X, mas neste rolo a velocidade mínima é ASA 400, o que significa um grão mais grosseiro que o ASA 100 do T-Max. Seria o mesmo que fotografar com ISO 400 na minha E-P1, e os leitores já sabem o que penso sobre sensibilidades ISO elevadas e o ruído, que é o grão da fotografia digital.

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O equilíbrio tonal manifesta-se, não apenas na correcção dos tons – aqui não há dúvidas que estamos perante tonalidades cinzentas, e não de cores dessaturadas –, mas sobretudo na ausência completa de excessos nas sombras e nas altas luzes. As áreas escuras da imagem são perfeitamente discerníveis, não havendo obscurecimento dos pormenores, e as porções claras não surgem estouradas. Mesmo em fotografias feitas sob luz solar intensa, as altas luzes nunca são problemáticas. Por seu turno, os contrastes são extremamente equilibrados. Neste aspecto, a fotografia com mais contraste é a das alfazemas, que usei para ilustrar o texto de ontem, por ser aquela com maior amplitude entre as sombras e as altas luzes. Digamos que é a mais contemporânea de todas no que ao contraste diz respeito, mas a mais exemplar é a do Mercado do Bolhão: podia ter redundado num desastre completo, com as sombras demasiado densas e as altas luzes estouradas – se tivesse feito a mesma fotografia com a E-P1, teria sido este o resultado –, mas os extremos da gama dinâmica ficaram soberbamente bem preservados. (Notem que as digitalizações que apresento aqui são caseiras, feitas na minha multifunções Canon Pixma MP520, estando longe de reproduzir fielmente os tons das imagens.)

O contraste que obtive é um contraste que muitos poderão considerar fora de moda, mas pensar assim é um erro. O que se passa é precisamente o inverso. Hoje abusa-se do contraste. Pior ainda, o que muitos parecem fazer é confundir contraste com gradação, e a tendência é para que esta última seja muito carregada e pesada. As fotografias que vemos hoje a ser publicadas pelos fotógrafos de rua do Facebook não são fotografias com muito contraste: são fotografias com uma gradação low key e a maior parte delas é mal executada: muitas destas fotografias são demasiado pesadas, com negros completamente inverosímeis e uma tonalidade irrealística.

Não vou dizer que não gostava que uma ou outra destas minhas fotografias não beneficiasse de um pouco mais de contraste, mas a verdade é que são mais autênticas e realistas do que as fotografias que se inscrevem no estilo actual de fotografar a preto-e-branco que a fotografia digital permitiu. E são mais fiéis à realidade do que as fotografias que converti digitalmente em preto-e-branco. São, acima de tudo, fotografias com tons mais puros – mas falta saber se essa pureza é sempre desejável, claro. O que são, sem sombra de dúvida, é mais equilibradas quanto à tonalidade e ao contraste e mais autênticas. A Leica M Monochrom pode esperar.

M. V. M.

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