Inventar um passado

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Talvez seja isto que estou a fazer – a inventar um passado que não vivi. Ou talvez esteja a tentar suprir as minhas falhas causadas pela falta de experiência com câmaras que exigem o domínio da técnica. A fotografia digital tem inúmeras vantagens: podemos visualizar os resultados imediatamente, fazer dezenas de exposições, guardar as fotografias no computador e editá-las sem a maçada de as mandar revelar, entre outras. Mas também tem os seus inconvenientes: o facto de podermos fazer uma multiplicidade de exposições torna-nos mais preguiçosos quanto aos aspectos composicionais da fotografia, que podem ser resolvidos escolhendo a melhor dessas inúmeras exposições ou, simplesmente, recortando a imagem, e livra-nos da necessidade de compreender bem a exposição e as suas variáveis. Isto significa que a fotografia digital nos dispensa do domínio das técnicas fotográficas, o que, a despeito de ter tornado a fotografia acessível às multidões, trouxe o inconveniente de um conhecimento incompleto da essência do acto de fotografar.

Com a fotografia convencional a fotografia tem de ser muito bem pensada. Só temos um número limitado de exposições, pelo que devemos ser extremamente cuidadosos na escolha dos motivos, no enquadramento e na composição. E, como não temos o auxílio dos modos de exposição automáticos e semi-automáticos (*), temos de saber qual a exposição correcta perante as diferentes condições de luz. Além de o número de exposições ser reduzido, existe um outro elemento que obriga a pensar melhor antes de disparar: a incerteza nos resultados. Se, com material digital, podemos confirmar imediatamente se a fotografia ficou aceitável, eliminando a incerteza, com uma câmara convencional este factor obriga a ser especialmente cuidadoso de maneira a que a incerteza seja reduzida para níveis aceitáveis.

Outro aspecto importante que é trazido pelo facto de o número de exposições estar limitado à capacidade do rolo é tornar-nos cientes da transitoriedade do momento fotográfico: numa câmara digital, a necessidade de captar o momento decisivo é importante; com uma câmara convencional torna-se imperativa. Se, com uma câmara digital, podemos obter mais uma ou duas (ou mais) exposições para compensar a que falhou, numa câmara convencional esta possibilidade não existe (a menos que se tenha muito dinheiro para gastar em rolos e se tenha a disposição para os mudar muito frequentemente). A consciência desta limitação obriga a fotografar melhor – a ser mais atento, mais ponderado e mais resoluto.

Optar pela fotografia convencional não foi um passo que tenha dado por capricho, nem certamente por um anacronismo que me tivesse assaltado de repente. Quando decidi comprar um gira-discos e voltar a ouvir vinil, fi-lo pela minha insatisfação com o som dos CDs, e não por querer regressar ao passado ou por me sentir ultrapassado pelas novas (pelo menos eram novas nesse tempo) tecnologias. No caso da fotografia, não foi esta a minha motivação. Esta foi aprender a essência da fotografia e viver uma experiência fotográfica que o digital não me permite. Que não haja dúvidas: estou perfeitamente satisfeito com o meu equipamento digital e com as fotografias que vou fazendo com ele (bem como com o fantástico programa de edição de imagem que escolhi) e não vou abrir mão do digital e das suas possibilidades. A câmara que comprei hoje vai ser um complemento, uma alternativa, e não uma substituta da minha E-P1.

Por esta altura os leitores mais argutos já perceberam que comprei uma câmara convencional. Mais exactamente uma Olympus OM-2, cujo estado de conservação e funcionamento me convenceu a gastar um pouco mais do que teria despendido comprando-a noutro lugar. Estou absolutamente encantado com a minha aquisição: quem leu alguns dos meus textos anteriores sabe que eu desenvolvi uma curiosidade enorme pela fotografia convencional e que seria apenas uma questão de tempo e de oportunidade até que comprasse esta câmara. A escolha de uma Olympus OM tornou-se imperativa pelo facto de já ter lentes do sistema OM – a 28mm-f/3.5 e a 50mm-f/1.4 –, mas também pela beleza desta câmara. Muito mais relevante do que a beleza, porém, é o facto de agora poder finalmente usar um visor, e logo um de uma claridade incrível. Já espreitei pelo visor de várias DSLRs e sempre achei a experiência um pouco frustrante, porque o que via era uma imagem escura, mas a luminosidade dos visores das SLR convencionais é simplesmente maravilhosa. Basta esta experiência para convencer o mais fanático dos digitalistas. Não há nada que se compare a compor a imagem através do visor de uma boa SLR. (Continua)

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(*) Note-se, porém, que as câmaras convencionais recentes estão equipadas com fotómetros, o que equivale a usar aquelas rodinhas laterais quando se aprende a andar de bicicleta…

M. V. M.

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