Conto (uma metáfora aplicável à fotografia)

Peter Paul Rubens - 1577-1640F. gostava de pintura. Especialmente a do Renascimento italiano – conhecia a obra de Giotto, Botticelli, Piero Della Francesca, da Vinci –, mas também a escola flamenga de Peter Paul Rubens e Rembrandt e Vermeer. O que ele não gostava mesmo era de pintura contemporânea. Não sabia muito bem como traduzir em palavras aquilo que sentia ao ver obras de de Kooning ou Jackson Pollock: aquilo não era arte. A arte, na opinião formada por este funcionário da repartição de finanças do 2.º bairro fiscal, devia exprimir a realidade, e aquela pintura moderna não fazia nada disso. Aquelas linhas desarrumadas, sem harmonia, e aquelas cores, não tinham qualquer espécie de correspondência com o que os olhos realmente vêem.

Uma noite F. teve um sonho. A despeito dos seus quarenta e sete anos, viu-se sentado no banco da escola que frequentara, rodeado por crianças que ouviam, num ambiente frio, quase de sepulcro, o que um homem de barbas brancas lhes dizia. O homem podia ser Júlio Pomar, mas F. viu nele uma incarnação de Deus. O ancião discorria sobre pintura, mas as palavras ressoavam e perdiam-se no mármore gélido e vazio da sala de aulas. As crianças à sua volta permaneciam caladas, mas os seus olhares prendiam-nas ao mestre e sorriam, como se uma revelação se desenrolasse diante dos seus olhos e ouvidos, trazidas por aquele geronte que, de súbito, pareceu imensamente solene a F. O homem de barbas brancas ganhou um halo de luz em seu torno e o seu corpo agigantou-se; apontou o dedo a F. e proclamou, com uma voz grave que reverberou na sala: «Tu és pintor!»

F. acordou excitado. Pela primeira vez sentiu que podia escolher um destino, em lugar de se deixar arrastar pelos acontecimentos e por vontades que não eram a sua. A voz do velho ressoou no seu cérebro: «tu és pintor!» Como fora colocado em regime de mobilidade especial, tinha tempo livre e dinheiro suficiente. Sentou defronte ao monitor do computador e procurou toda a informação que a sua mente conseguiu absorver. Informou-se sobre telas, óleos, guaches, pincéis, paletas. Em breve frequentava fóruns nos quais se discutiam as vantagens dos artigos Caran d’Ache sobre os Faber Castell. Reparou – era por demais notório – que alguns foristas discutiam em tom excitado, tentando provar, com argumentos que pareceram muito racionais à mente de F., a supremacia de uma marca sobre todas as demais. O mesmo com os pincéis; até as telas eram objecto de controvérsias ferozes nos espaços de conversação cibernética. F. divertia-se; imaginava que, se aqueles foristas se encontrassem em pessoa, frente a frente, a discussão que necessariamente aconteceria seria exaltada, podendo mesmo degenerar em violência física, como um ringue imaginário em que a um canto sentasse um boxer vestindo as cores Caran d’Ache e, ao outro, um lutador equipado pela Faber Castell.

Estava decidido – «tu és pintor!». F. sabia, porque uma vez fora lá mandado em criança, que existia uma casa onde os pintores se forneciam de telas, pincéis, óleos, cavaletes, paletas, diluentes. Uma tarde foi a essa loja; explicou ao comerciante (que, se não fosse por ser ainda grisalho, se assemelhava perturbadoramente ao ancião do seu sonho) que queria ser pintor e pediu «o melhor material que tiver».

O comerciante replicou:

– O senhor estuda arte?

F. protestou que não, mas que queria pintar; ao que o comerciante devolveu:

– Mas o senhor alguma vez pintou?

– Nunca.

– Mas aprendeu em algum lugar? É que o material é caro; se não sabe pintar, não se justifica comprar o melhor material…

F. embaraçou-se. Não podia argumentar que fora um sonho que o impelira a pintar. O homem tomá-lo-ia por um louco ou, pior, um pobre diabo estúpido a quem se meteu na cabeça uma pretensão patética. F. saiu do seu corpo e viu-se de fora; o que viu foi um pobre diabo estúpido a quem se meteu na cabeça uma pretensão patética, mas rapidamente voltou a si; irritou-se com a resistência do comerciante: que queria ele? Estava ali para vender ou para discutir?

– O senhor vai vender-me o que lhe pedi ou não? – exclamou F, num tom mais violento do que realmente queria.

– Ó amigo – soltou o comerciante num tom que fez F. sentir-se amesquinhado e ridículo –, eu vendo-lhe o que quiser! Tenho aqui um cavalete italiano. É o melhor que se faz. É feito com madeira de bétula finlandesa, mas é caro. Quer levá-lo? Aqui está! Telas? Estas – e expôs-lhe uma tela de 60x90cm – são as melhores que temos, mas são também as mais caras.

O comerciante pousou no balcão os artigos melhores e mais caros que tinha para venda. Enquanto procurava nas prateleiras, ia exclamando: «Aqui tem. Nem o Júlio Resende comprava disto, mas se o vai ajudar a pintar melhor, quem sou eu para o contrariar?» Noutra ocasião, disparou: «Eu só estou aqui para vender; o senhor é que sabe o que quer!»

A humilhação de F. cresceu, mas não deu parte de fraco, nem a sua determinação diminuiu. Fora uma inspiração divina que o guiara para a pintura; quem era aquele comerciante para o impedir de prosseguir o seu destino?

O comerciante embrulhou todo o material e apresentou a F. a factura. Havia a pagar quase cinco mil euros, e F. pressurosamente preencheu o cheque. «Este dinheiro vai fazer-me falta, mas é bem gasto; tudo em nome da arte!». De novo ecoou no seu cérebro a frase divina: «Tu és pintor!»

F. quase explodia de exultação quando chegou a casa. Mudou a disposição do quarto que vagara desde que a mulher e o filho o haviam deixado e montou o cavalete de maneira a que pudesse ter uma vista desimpedida para o mar; Pousou a tela sobre o cavalete, e os seus dedos não se reprimiram de acariciar a textura do tecido. «Isto sim, é qualidade» – cogitou, apesar de nunca ter visto outra tela além da que agora segurava, compondo-a milimetricamente sobre os suportes do cavalete. Desembrulhou os pincéis Caran d’Ache: como eram belos, com a sua laca vermelho-rubi e as suas cerdas naturais. E a paleta! Quantas vezes se fantasiara a ele mesmo segurando uma paleta e brandindo um pincel defronte a uma tela? Pois bem, agora já não era uma fantasia, era a realidade.

Depois de misturados os óleos sobre a paleta, F. começou a pintar. Pintou a paisagem que via da janela, extasiado com a verosimilhança entre o que via e o que ia surgindo sobre o fundo branco. «Lindo… lindo!», exclamava para si mesmo a cada passo. Em breve terminou a sua primeira pintura a óleo. Nesse dia não jantou; trouxe uma sanduíche preparada à pressa, para não interromper o ritmo do trabalho. Eram já quatro da manhã quando decidiu que a sua obra estava perfeita. Não conseguiu dormir, porque a excitação não o deixou. De manhã, esperou ansiosamente pelas dez antes de telefonar a um amigo que, por ter sido intermediário na venda de algumas aguarelas pintadas por um artista marginal e alcoólico, imaginava ser um entendido em arte. Esperou ansiosamente a chegada do amigo e, quando este tocou à campainha, abriu a porta com uma excitação pueril; conduziu-o pela mão até ao quarto que fora do filho e mostrou-lhe o produto da sua arte. «Tu és pintor!» – lembrou-se ele de novo.

O amigo não reagiu como F. antecipara; parecia ter ficado congelado, tal a imobilidade com que permaneceu defronte à tela, com os olhos fixos e mortiços.

– Não sei que te dizer… olha, isto parece as pinturas que se vendem na rua, em Sampaio Bruno e Santa Catarina. Não está lá muito bom… qualquer um era capaz de fazer isto.

F. ficou fora de si. «Mas… – balbuciou com a voz tremendo-lhe – é impossível! Isto está lindíssimo! Tu não percebes nada de arte! Isto foi feito com os melhores materiais do mundo… gastei cinco mil euros para comprar o melhor cavalete, as melhores telas, os melhores pincéis, os melhores óleos… e pintei uma paisagem lindíssima! Como é que podes dizer uma enormidade dessas?»

– Olha – discorreu o amigo com impavidez –: para começar, a perspectiva está completamente errada. Não percebo por que fizeste uma paisagem na vertical. As proporções estão mal calculadas. As cores não têm harmonia; não percebo por que usaste este tom de azul para pintar o mar… parece ganga. E a pintura está plana, não tem relevo… mas o pior é que esta pintura não me diz nada. Não tem nada de novo, é inexpressiva. Não é nem realista, nem figurativa. É demasiado vulgar para ser figurativa, demasiado imprecisa para ser realista. Foi um disparate teres gasto uma fortuna em material de pintura sem saberes pintar.

F. permaneceu imóvel durante alguns segundos. Um arrepio gelado percorreu-lhe o corpo da cabeça aos pés enquanto a palavra «vulgar», empregue pelo amigo na sua apreciação tão injusta, o atormentava. Quando recobrou, correu para a sala. Voltou com uma Glock na mão e disparou três tiros sobre a cabeça e o peito do amigo, que se esvaiu em sangue sobre o chão alcatifado. Disparou sobre a tela, desfigurando-a, e sobre a paleta, que caiu estilhaçada sobre o corpo sem vida do amigo; recarregou a Glock e disparou sobre o cavalete e, por fim, enfiou o cano da arma na boca e disparou.

Na fracção de segundo que precedeu a sua morte, ainda lhe perpassou a mente o velho das barbas brancas apontando na sua direcção, mas desta vez exclamou: «tu não és pintor: és um idiota!»

M. V. M.

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