A marca misteriosa

Brian Griffin, debruçado sobre o convés do paquete Queen Elizabeth II, contemplava o céu e o mar, que pareciam fundir-se em azul; deixou-se ficar ali até a tarde esmorecer em pinceladas cor-de-rosa que tingiam a linha do horizonte. Brian Griffin suspirou de contentamento. A sua carreira de jornalista ao serviço do Globe levava-o ao Panamá, onde investigaria o coup d’état que colocara no poder um ditador militar; deveria descobrir as ligações do tirano com grupos de traficantes de armas, de acordo com as suspeitas que haviam sido transmitidas, sob sigilo absoluto, ao redactor-chefe – mas por enquanto havia que gozar a paz calma da viagem. Sentia-se como um milionário num cruzeiro (em breve o navio navegaria o Mar das Caraíbas), e o perigo da missão de que fora incumbido podia esperar. Tudo o que importava, naquele momento, era aquele mar de calmaria. Os golpes de estado, os militares, os espiões e os traficantes que decerto o iriam importunar, bem podiam ficar para depois.

O sol, como se se dissolvesse na água, punha-se já no horizonte. Um maciço de nuvens surgira no céu, e o sol poente parecia pintá-lo de vermelho. O mar espelhava o reflexo rosado e, acima das nuvens, o céu adquiria uma tonalidade escura e serena. «Que espectáculo maravilhoso!», pensou Brian Griffin. Não hesitou: correu ao seu camarote e, de uma das malas que não se dera ainda ao trabalho de desfazer, tirou a sua Nikon FM2. Caminhou apressado pelo convés; a sua excitação fê-lo ignorar a Baronesa de Königswarter e não correspondeu ao seu aceno. Colocou-se na proa e apontou a câmara, enquadrando cuidadosamente a linha do horizonte através do visor. Fotografou até o rolo esgotar; depois voltou para o camarote e sentou-se no beliche. Teria de esperar ainda uma semana antes de entregar as fotografias a alguém que as revelasse. Suspirando, olhou a superfície prateada do topo da câmara, desde a manivela do rolo até ao botão do disparo. Nunca aquele instrumento lhe parecera tão atraente como nesse entardecer em que ajudou Brian Griffin a fixar para sempre aquele horizonte irrepetível.

Foi então que o olhar de Brian Griffin pousou sobre uma pequena marca, gravada em baixo-relevo no painel cimeiro da máquina, de que até então não se apercebera. A fotografia não era a sua profissão: o repórter fotográfico que o acompanharia nessa missão zarpara para o Panamá uma semana antes num cargueiro. A fotografia era um mero entretenimento que Brian Griffin descobrira há poucos meses, e de nada lhe interessavam os segredos intrincados de uma máquina fotográfica. Aquela marca, um pequeno círculo atravessado por uma linha recta, deixara-o intrigado. Lembrou-se de quando entrevistara Hergé em Bruxelas, e este lhe apresentara o álbum que a Casterman acabara de publicar, Les Cigares du Pharaon. Aquela marca evocara-lhe de imediato a que Hergé imaginara ser o código dos traficantes dessa aventura! Estaria ele, Brian Griffin, repórter do Globe, na pista de um novo mistério? Que significaria aquela marca? Seria ela um código, uma identificação de algum grupo secreto que se dedicava ao crime organizado? O cérebro de Brian Griffin parecia ir explodir com as hipóteses que formulava à velocidade da luz.

Decidira que havia de investigar o significado daquela marca misteriosa, mas agora havia que resolver outras premências. Saiu do camarote e farejou o convés meticulosamente; deteve-se junto de um cabrestante, alçou a pata traseira esquerda e deixou uma poça de líquido amarelo. De volta ao camarote, cruzou-se com o diplomata Henry Kissinger, então ainda bastante jovem; resistiu ao impulso de lhe morder a perna, olhando-o apenas e exclamando: «Au, au!». E entrou no camarote numa corrida atabalhoada, depois de Kissinger o ter perseguido durante alguns metros brandindo um exemplar do New York Times enrolado na sua mão. Extenuado, Brian Griffin aninhou-se no cesto e adormeceu calmamente.

Meus caros leitores: se, como eu e Brian Griffin, se deixaram intrigar pela pequena marca que figura no painel do topo da maioria das câmaras, fiquem sabendo que não há mistério nenhum: a marca assinala a posição do plano focal. É a partir dali que se deve medir a distância em relação ao motivo a fotografar, o que é útil, por ex., para medir a profundidade de campo. A marca corresponde à posição do sensor – ou, no caso da Nikon de Brian Griffin, do filme – pois é essa posição que determina o plano focal. É só isto, não há mistério nenhum. (Talvez haja mais mistério em descobrir quem é Brian Griffin, mas os mais familiarizados com a programação dos sábados da RTP2 já terão descoberto.)

M. V. M.

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