Cuidado com o que se lê na Internet!

Uma das piores ilusões que o fotógrafo em busca de conhecimento pode ter é a de que a Internet é uma grande fonte de ensinamentos. Sei bem que estou a publicar textos sobre fotografia na Internet e corro o risco de não ser levado a sério ao escrever como o faço – mas, se lerem o texto que aparece quando se carrega em «acerca do blog» na barra negra da parte superior, abaixo do cabeçalho, verão que também digo que os meus textos não pretendem ser nenhum manual e que a sua leitura não substitui uma aprendizagem devidamente estruturada (entendendo-se por isto a leitura de bons livros, como os de Michael Freeman, a frequência de workshops ou mesmo de cursos e a contemplação demorada das fotografias dos grandes mestres).

Quando se lêem os comentários aos artigos publicados em websites como o Digital Photography Review, as hipóteses de se encontrar comentários completamente mal informados é enorme – especialmente nesta altura, em que se consideram os telemóveis como instrumentos idóneos para fazer fotografia: há quem exulte com as novidades e as proclame como a grande inovação do século e o caminho que a fotografia vai seguir daqui em diante. Estes comentários são feitos por quem apenas vê na fotografia uma maneira de ilustrar qualquer coisa que lhes parece digna de ser partilhada com os amigos virtuais do Facebook, de modo que, para eles, a possibilidade de usar o sistema operativo Android e a conectividade WiFi são mais importantes do que a qualidade da imagem, mas eu parto do pressuposto de que os leitores do Número f/ se interessam pelo aspecto estético e criativo da fotografia, o que nunca será compreendido por aqueles comentadores. Um telemóvel nunca será um bom substituto para uma boa câmara porque não dá o mesmo grau de configuração que esta última: não tem modos de exposição avançados, baseando a exposição e a medição da luz nos parâmetros do fotómetro, pelo que nega ao fotógrafo qualquer possibilidade de controlo. O utilizador tem de se conformar com os parâmetros do fotómetro, o que é extremamente limitativo e pode ser um impedimento em termos de qualidade da imagem.

O pior dos comentários e dos fóruns da Internet não é esta exortação da mediocridade: é a facilidade com que se proferem os maiores disparates quanto às técnicas fotográficas e ao equipamento. Isto pode induzir o leitor que imagine que vai colher ensinamentos em erro. Uma grande parte daqueles comentadores e foristas tem ideias estranhas: segundo eles, nenhuma câmara com sensor mais pequeno que o APS-C é capaz de fotografias de boa qualidade, a abertura tem uma equivalência – tal como a distância focal – quando uma lente é montada num sensor de área menor que o full frame; como seria porventura previsível, abundam ali aqueles que entendem que a qualidade da imagem de uma câmara se mede pelo número de megapixéis ou pelo valor ISO máximo capaz de atingir. Se eu me deixasse influenciar por estas opiniões, já teria deitado fora todo o meu equipamento, porque as minhas lentes têm uma abertura mínima de f/44 (!), o sensor da minha câmara só vai até ISO 6400 e é demasiado pequeno para ter uma boa profundidade de campo e, no geral, uma boa qualidade de imagem. É impossível, para aquelas mentes, que a minha câmara e as minhas lentes permitam fotografar com um mínimo de qualidade.

Há, nestes espaços virtuais, muito de fanatismo em torno de marcas e um tipo de pseudo-conhecimento baseado exclusivamente em especificações técnicas. E este último, pela maneira como alguns se exprimem, pode até parecer plausível e induzir em erro. Quando, porém, analisamos estes foristas e comentadores mais de perto e vemos as suas fotografias – alguns têm orgulho em mostrá-las a toda a gente -, é fácil perceber que nada sabem de fotografia. Publicam fotografias dos seus gatos, ou, como já me aconteceu ver, de quadros de cortiça! (Presumo que fotografados com câmaras poderosas e com ISOs astronómicos.)

Aqueles comentários e entradas devem ser lidos com extrema precaução. Apesar de muitos deles, pela profusão de números e especificações que contêm, poderem parecer plausíveis, a maioria não é mais do que justificações pseudo-científicas de ideias competamente erradas. A melhor abordagem que se pode ter da técnica fotográfica é a de compreender como funcionam os corpos e as objectivas, i. e. entender a exposição – mas convém não esquecer que a fotografia só é válida de for a expressão de alguma coisa. Caso contrário estaremos a inverter completamente o sentido da fotografia e a fotografar para justificar o equipamento que temos, em lugar de o usar como auxiliar da expressão.

Esta prevalência do equipamento é um mal de que sofrem os aficionados de outro hobby: a audiofilia. Podem não acreditar, mas há por aí muita gente que compra música, não para retirar prazer da audição, mas para ouvir como soa através do seu sistema. Compram CDs «audiófilos» porque querem ouvir como as colunas funcionam com vozes e outras anormalidades que me levaram a deixar o hobby para não me tornar num audiófilo e ficar igual a eles. Os audiófilos não gostam de música: gostam dos aparelhos e dos cabos… fiquei triste quando  descobri que este espírito também existe na fotografia (o que não significa que vá deixar de fotografar, pelo menos para já). E tenham cuidado, porque os tarados da técnica estão todos nos principais websites de fotografia a debitar as suas opiniões mal formadas como quem prola sentenças.

Para ilustrar o que escrevi, não resisto a mencionar um comentário que li algures (por sinal num blogue bem respeitável). Entendeu o comentador, depois de ler um artigo sobre o telemóvel Apple iPhone 5, que aquilo seria o que Henri Cartier-Bresson usaria se fosse vivo.

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