Voltar ao analógico? (2)

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Vamos então ver quais são as vantagens e desvantagens da fotografia analógica e da digital, começando pela primeira. Este pode parecer um exercício fútil, atenta a rápida implantação da fotografia digital, mas não é. Quando ando pelas ruas da minha cidade, reparo que há cada vez mais fotógrafos equipados com câmaras analógicas. É bem possível que estejamos a passar por um daqueles revivalismos, tal como acontece presentemente com os discos de vinil. E isto compreende-se: há quem rejeite a constante mudança e os imperativos do mercado, o qual nos está constantemente a impingir uma evolução que é muitas vezes falsa, e prefira a estabilidade e confiança de um meio que, a despeito das suas limitações, está longe de se ter esgotado.

A fotografia analógica tem, desde logo, uma enorme vantagem: permite que o fotógrafo desenvolva as suas aptidões técnicas. Manusear uma câmara de filme implica ter um conhecimento rigoroso dos valores da exposição e da relação de reciprocidade existente entre a abertura, a velocidade do obturador e a sensibilidade do filme. Exige, também, rigor na focagem e na determinação da profundidade de campo. Numa câmara de rolo o fotógrafo não tem qualquer possibilidade de visualizar o enquadramento num ecrã; tudo o que está ao seu alcance é, nas câmaras mais recentes, um ponteiro que indica aproximadamente se a imagem vai ficar correctamente exposta, sobre-exposta ou sub-exposta. O fotómetro só surgiu na década de 70 do século passado, o que não impediu muitos fotógrafos anteriores a essa época de fazer fotografias perfeitas. Mesmo com a ajuda do fotómetro, porém, é essencial saber regular a câmara para obter bons resultados.

Outra vantagem – esta muito subjectiva, admito – é o facto de a fotografia analógica ser orientada para a impressão. No passado, uma fotografia apenas fazia sentido (descontando os slides) se fosse impressa. A impressão providencia um sentimento de materialidade e tactilidade que, no meu entender, dá um sentido à fotografia que se está a perder nos dias de hoje, com a partilha de imagens via Internet a reduzir a fotografia à condição de meros ficheiros de imagem.

Por outro lado, há uma arte na fotografia analógica que é tão exigente quanto o próprio acto de fotografar – a revelação. Revelar uma fotografia não é para qualquer um, e as revelações comerciais em grosso não desenvolvem o verdadeiro potencial da fotografia. Os fotógrafos que têm um quarto escuro usam maciçamente técnicas que hoje nos parecem rudimentares, mas que estão na origem das actuais ferramentas de edição de imagem. O dodging, o burning e o unsharp mask eram feitos na revelação, com recurso a cartolinas perfuradas, sombras e máscaras. A revelação é uma arte em si mesma.

Depois há a qualidade da imagem. A fotografia analógica tem uma qualidade mais humana que a digital. Esta última tende para a nitidez perfeita, ao passo que a primeira é mais conforme à visão humana. Nós não vemos objectos perfeitamente definidos, com um recorte artificioso e contrastes drásticos. A fotografia analógica parece-me mais natural.

E está imune – desde que o fotógrafo domine a exposição – a alguns dos grandes defeitos da fotografia digital. As altas luzes e as sombras surgem em regra mais correctas do que com a fotografia digital, porque a resposta do filme, em matéria de gama dinâmica, é mais suave e extensa. Há um roll off menos abrupto das extremidades da gama dinâmica que só está ao alcance dos melhores sensores existentes no mercado. Sei que isto pode ser controverso, e há muitos que afirmam o contrário, mas não tenho o hábito de emitir opiniões infundadas: para formular esta afirmação, socorri-me do essencial Mastering Digital Photography (ed. Ilex), de Michael Freeman (p. 627). E não há ruído, nem pixéis defeituosos: há o grão, decerto, que grosso modo equivale ao ruído na fotografia digital, mas aquele pode ser evitado mediante uma escolha judiciosa do filme de acordo com a sua sensibilidade ISO.

Por fim, os corpos são mecanicamente mais simples e menos sujeitos a desgaste. É possível encontrar, no mercado de segunda mão, câmaras como as Nikon F, Canon AE, Olympus OM e Pentax K-1000 com mais de trinta anos em perfeito estado de funcionamento. Duvido que as actuais câmaras digitais tenham este grau de longevidade.

Muitas das vantagens apontadas à fotografia analógica têm por reverso as suas desvantagens. Antes de mais, os conhecimentos de fotografia requeridos para obter bons resultados levam a que, por vezes, seja intimidatório pegar na câmara analógica que está no fundo do baú dos nossos pais e comprar rolos para fazer fotografias com ela. Claro que câmaras como as Minolta 7S e a Olympus Trip ofereciam graus de automatismo que se aproximavam das compactas de hoje, mas não deixava de haver um grau de dificuldade superior ao dos dias da fotografia digital. Mesmo a focagem – a despeito de a focagem automática ter surgido ainda na era analógica – era uma ciência em si mesma, sem o grau de certeza e previsibilidade que hoje existe.

Acresce que a fotografia analógica é cara. Embora os corpos que enumerei acima possam ser adquiridos por €100 ou menos, há que contar com o preço dos rolos de filme e da revelação. E é uma forma de fotografar sujeita a muitas limitações de ordem prática: o número de fotogramas de um rolo é limitado, o que, se traz a vantagem de obrigar a pensar melhor a fotografia nos aspectos da oportunidade, da composição, do enquadramento e da exposição, acarreta a perda de inúmeras oportunidades de tirar fotografias. Numa sessão longa de fotografia, como as que a fotografia digital permite, é necessário transportar vários rolos e substituí-los, o que implica o risco de destruir os fotogramas pela sua exposição à luz. A fotografia analógica não é prática.

A revelação é dispendiosa; e, se for o próprio fotógrafo a fazê-la no seu quarto escuro, implica exposição a emulsões e vapores que podem ser prejudiciais à saúde. Hoje já não temos emulsões de mercúrio, que provocavam distúrbios neurológicos que podiam levar à loucura, mas os agentes químicos empregues na revelação são nocivos, podendo causar queimaduras graves.

O facto de a fotografia analógica ter por destino a impressão significa que não existem grandes possibilidades de edição da imagem. Apesar das técnicas empregues na revelação para melhorar a imagem, o que é certo é que são muito poucos os que se podem dar ao luxo de ter o seu quarto escuro e aplicar as técnicas que se usam para retocar as fotografias. O fotógrafo estritamente amador terá de se conformar com os resultados obtidos no momento do disparo, o que, se tem a vantagem de o obrigar a dominar a técnica fotográfica, pode redundar em resultados frustrantes.

Por fim, pode ser difícil encontrar material analógico e reparar os corpos em caso de avaria. A manutenção das câmaras analógicas, agora que o formato foi praticamente abandonado, é cara e pode tornar-se impossível por inexistência das peças requeridas. (Continua)

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3 thoughts on “Voltar ao analógico? (2)”

  1. COMO SEMPRE, SEUS TEXTOS, ATUALISADOS E CORRETOS, FAZEM PARTE DE VALORES QUE NAO ESTAO SENDO INCORPORADOS POR MUITOS…PARABENS.
    HAROLDO CORONEL

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