Eu, o ministro e os graffiti

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A direita, quando chega ao poder, tem uma tendência irresistível para se afirmar pela força e autoridade. Como se tudo se pudesse resolver pela repressão, usa um discurso que faz tábua rasa de doutrinas criminais estabelecidas e eficazes, como a prevenção e a reinserção, para enveredar por um discurso punitivo, deste modo pensando colher os frutos do medo que semeia, através do seu discurso securitário, com vista a preservar o seu poder. Vemo-lo em todo o lado: nos Estados Unidos, com os discursos do Get Tough On Drugs dos tempos de George W. Bush, que mais não fez que mandar para a prisão alguns pequenos delinquentes enquanto o tráfico e os traficantes prosperam; na França de Sarkozy, com o tratamento dos imigrantes, mas também no Reino Unido, no Canadá e em muitos outros países há manifestações desta mentalidade primária. Os conservadores gostam da força e da repressão por imaginarem que o povo está anestesiado pelo medo e anseia por mais policiamento, mais repressão e menos liberdade, trocando de bom grado esta última por uma sensação ilusória de segurança. Isto manifesta-se em todos os aspectos da vida em sociedade, desde a grande criminalidade – que, diga-se, não é afectada – até à pequena delinquência (que serve como exemplo da aplicação prática deste discurso).

Agora o ministro Miguel Macedo decidiu embirrar com os graffiti. Como os ministros e seus assessores têm um conhecimento vago e periscópico da vida e são todos eles ignorantes e refractários à evolução da vida e da maneira de pensar das pessoas, misturam graffiti com tags, arte urbana com vandalismo e pintura com conspurcação. E, evidentemente, preparam-se para reprimir, e não para prevenir, que seria o melhor caminho – mas reprimir sai mais barato do que implementar medidas preventivas que passam pela educação cívica. Vai daí, resolvem-se os problemas à bastonada, porque os bastões são mais baratos que as escolas e os professores.

Eu gosto de graffiti. E também de stencils. Entendo-os, maioritariamente, como expressões de arte urbana que deviam ser apoiadas e estimuladas, à semelhança do que acontece noutros países e cidades – como Bruxelas e Londres – em que existem paredes reservadas aos graffiti. Mas uma coisa são os graffiti feitos com intenção artística, outra é o borrar de paredes e monumentos que acontece nas nossas cidades. Se andarmos pelos Caminhos do Romântico, aqui no Porto, não podemos deixar de nos sentir chocados com o aspecto daquelas paredes e muros, que são património da nossa cidade e do país, completamente conspurcados por graffiti e tags de mau gosto. Detesto andar pela cidade e vê-la coberta de pinturas que não são mais que poluição, assim como não gosto de pichagens, esses slogans políticos escritos a spray.

Aliás, quer-me parecer que o que o ministro Miguel Macedo quer verdadeiramente é apanhar os autores de pichagens. Isto pode ser o meu lado paranóico-conspirativo a funcionar, mas é bem possível que a intenção seja reprimir demonstrações de discordância pública com as medidas do poder. Contudo, voltando aos graffiti, nada tenho a opor que se impeça a conspurcação de paredes – mas não seria mais producente afectar paredes de fábricas abandonadas e outros lugares onde o prejuízo estético não fosse evidente para permitir a prática livre de graffiti? Não seria uma educação aberta e liberal, que orientasse para os valores estéticos (ensinando que não se deve conspurcar aquele que é o nosso património e que existem lugares onde os jovens podem exprimir-se livremente), preferível à repressão?

Claro que seria. Mas ficava caro, e o dinheiro dos contribuintes não é para ser aplicado na educação: é para salvar bancos. E perder-se-ia o pretexto para punir os autores das pichagens.

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Os graffiti e stencils constituem motivos óptimos para fotografar. Há-os de muito boa qualidade, espalhados pela cidade, e dificilmente resisto quando vejo uma pintura interessante. Como este, que captei na Rua Miguel Bombarda (e que, infelizmente, foi apagado). E muitos outros. Quando bem feito, o graffito (graffiti é o plural da palavra italiana graffito) pode acrescentar à beleza da paisagem urbana. Ou pode mesmo dar beleza e cor a lugares feios e sombrios. E, acima de tudo, acrescenta vida e juventude às cidades. Não se pode esperar que o Dr. Miguel Macedo compreenda isto.

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