Agradar a todos

Ansel Adams, Mount Williamson
Quando ando pelo Facebook fico surpreendido com as reacções das pessoas perante as fotografias que ali se publicam ou partilham. De que é que as pessoas gostam? De paisagens que provavelmente acham maravilhosas, mas são completamente inautênticas de tão manipuladas; de imagens que são no seu entender belíssimas, mas que, na realidade, são de uma banalidade confrangedora; ou então de fotografias completamente irreais, ao ponto de já não serem fotografias, mas sim trabalhos gráficos.
Há pouco mais de um ano resolvi publicar na minha página do Facebook algumas fotografias de grandes fotógrafos – os do costume: HCB, Robert Capa, Garry Winogrand et al. Foram quase ignoradas; não houve partilhas, comentários foram poucos. Posso concluir que pouca gente gosta de fotografia: o que gostam é de imagens que apelam superficialmente, mas não têm nada que perdure; imagens que valem pelo impacto estético inicial, mas são, no essencial, frívolas.
Esta apreciação medíocre, que não é mais que um sinal dos tempos que vivemos, leva muitos amadores a fotografar aquilo que as outras pessoas gostam de ver; querem reconhecimento, por isso fazem fotografias que agradem a todos. Em lugar de procurarem exprimir as suas ideias, reduzem a sua fotografia ao mínimo denominador comum por saberem de antemão que vão agradar às multidões.
Eu não. Na verdade, nem sequer me considero um fotógrafo, mas apenas um amador (no sentido, como ouvi uma vez da boca de Júlio Gago a propósito do teatro amador, de alguém que ama – neste caso não o teatro, mas a fotografia). Ou, se sou um fotógrafo, sou-o da mesma maneira que uma pessoa que compra umas canas de pesca e vai para o rio pescar pode ser considerada um pescador. Mas há algo que tento fazer: que as minhas fotografias correspondam aos meus princípios estéticos e que o seu conteúdo – se acaso têm algum – seja uma emanação da minha maneira de ser. Sei bem que ainda tenho muito caminho a percorrer, mas o meu propósito é fazer fotografia que seja uma forma de expressão pessoal. Não quero ter muitos «gosto» no Facebook; é bom quando as minhas fotografias são reconhecidas, claro, mas não é minha intenção agradar a toda a gente. As minhas fotografias têm de começar por agradar, antes de mais, a mim mesmo: este é o primeiro filtro, o crivo por que têm de passar. São inúmeras as fotografias que rejeito por as julgar banais e desinteressantes; neste aspecto sou hoje bem menos indulgente o que era há um ano atrás, quando me satisfazia com fotografias que hoje me parecem vulgares. Hoje sou muito mais exigente e selectivo naquilo que publico no Flickr e procuro não desperdiçar fotografias. Quando saio de casa para fotografar, faço-o depois de previamente ter escolhido um tema: fotografia de rua, paisagens, arquitectura, fotografia urbana, etc. (Eu ainda não escolhi um tema a que me queira dedicar em exclusivo, embora já tenha limitado o número de opções.)
Tenho referências sólidas na fotografia e é para esses mestres que olho; é a sua obra que me inspira, porque preciso de sentir que tenho orientações estéticas e me integro num estilo. Sei bem que nunca chegarei ao nível dos fotógrafos cuja obra me serve de inspiração, mas sei também que, se apontar para o alto, tenho mais possibilidades de acertar num alvo elevado do que se apontar para o chão, para esse território onde se encontram a banalidade e o artifício usado para agradar às multidões. A minha fotografia é uma tentativa – a tentativa de encontrar uma expressão própria. Sei que ainda não a encontrei, mas pelo menos procuro-a, mesmo correndo o risco de não agradar nem ao povo nem aos fotógrafos. O primeiro não compreenderá o que tento fazer, estes últimos apreenderão de imediato as minhas limitações. Mas vale a pena. Estou a percorrer o meu caminho e não aquele que é o mais óbvio, o mais confortável, aquele que todos os outros seguem. E isto é algo a que não renuncio. Não quero ser exposto, não procuro a consagração nem tornar-me numa referência da fotografia. O que quero é buscar satisfação em fotografar – porque fotografar é um prazer -, e esta, obtenho-a quando as minhas fotografias correspondem aos meus próprios critérios – e não necessariamente aos das multidões. Sei que estou a escolher o caminho mais difícil, mas não me importo. É o que quero seguir.
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