Liberdade, autoridade e arbitrariedade

Os factos que narrei no texto de ontem  deste blogue deixaram-me pensativo e revoltado. Deixaram-me, sobretudo, a questionar se realmente vivemos em liberdade. O fotografar, ou não, é o menos – pelo menos para mim, que não sou alguém que faz da fotografia a sua vida; os profissionais sentirão estas proibições cravadas bem fundo na sua carne, mas eu (sobre)viveria sem fotografar. O que não significa que me sinta conformado, ou que deva calar a revolta perante o que aconteceu.
Na verdade, a proibição que relatei ontem é um simples sintoma de um mal geral da sociedade ocidental – o medo. Pelo menos desde 11 de Setembro de 2001 que o Ocidente vive sob o medo, com os cérebros formatados por uma propaganda odiosa que contribui para nos transformar numa massa inerte e acéfala. O que aconteceu nesse dia foi trágico, e espero, para bem de toda a humanidade, que nunca se repita uma chacina destas proporções, mas o 11 de Setembro veio servir de pretexto para, a coberto do reforço da segurança, se limitarem indevidamente as liberdades individuais. À custa dos atentados, criou-se um ambiente geral de medo – espero que ainda haja quem se lembre dos falsos ataques com Anthrax, com que procuraram lançar o pânico nas semanas que se sucederam ao 11 de Setembro – que serviu na perfeição os interesses dos poderes que, cada vez mais, parecem empenhados em reduzir cada ser humano à condição de mão-de-obra passiva, obediente, inexigente, barata e conformada. Limitam-nos as liberdades, e nós aceitamos porque a justificação nos parece razoável – mas até que ponto o é? Outros medos, para além do terrorismo, são regularmente agitados para servir de pretexto a mais restrições dos nossos direitos: há a insegurança – que é agravada pelas políticas de quem nos domina pelo medo -, que nos leva, não apenas a aceitar, mas a querer que sejamos vigiados a cada momento nas ruas das nossas cidades pelos circuitos CCTV; há a pedofilia, que nos faz desconfiar de quem sequer sorria para os nossos filhos e a chamar a polícia se alguém quiser fazer uma fotografia dessas crianças; e há outros factores que nos levam ao ódio pelo nosso semelhante, como quando incriminamos minorias étnicas e estrangeiros pelos crimes que aqui são cometidos e pelo desemprego, pela pobreza e pela insuficiência das prestações do Estado. Está instalada na Europa e nos Estados Unidos, a título definitivo, a paranóia. A comunicação social é o maior dos cúmplices pela propagação destes medos e desta irracionalidade que, diga-se por ser verdade, é sempre atiçada quando os conservadores tomam o poder. E esta paranóia leva a que aceitemos de bom grado a aplicação de medidas restritivas e arbitrárias
Sinto-me sempre satisfeito quando ouço alguém levantar a voz contra esta vida absurda que levamos aqui no Ocidente. Há quem não se conforme em viver como um carneiro e se revolte contra este medo que subrepticiamente somos levados a aceitar e denuncie os abusos e os excessos de quem nos quer tirar o último reduto da nossa personalidade – a liberdade. Hoje tive inúmeras mensagens de pessoas que exprimiram o seu desagrado pelo que nos está a acontecer nesta nossa sociedade vigiada, restritiva e opressora. O que se passou comigo no Sábado, na estação da Trindade do Metro do Porto, foi apenas um pequeno exemplo da repressão odiosa que consentimos com o nosso medo e irracionalidade; foi uma trivialidade, quando comparada com as restrições dos fotógrafos profissionais – em particular dos fotojornalistas. Chegámos ao extremo de haver agressões a fotojornalistas em Portugal: foi no dia 22 de Março de 2012, em Lisboa, dia de greve geral. E já temos os apparatchiks do governo a emitir soundbites para os órgãos de polícia e para a comunicação social, fazendo-nos saber que haverá «tolerância zero» para as concentrações e manifestações não autorizadas na próxima quarta-feira, 25 de Abril. Eis como celebramos a liberdade hoje em dia, depois da chegada de Passos Coelho e do Relvas ao poder!
A liberdade não é um ideal romântico-revolucionário de idealistas tontos: a liberdade é um direito que temos! É algo que nos distingue das outras espécies, que contribui para a formação de seres humanos melhores, mais inteligentes, evoluídos, dignos e esclarecidos (eis a razão de alguns odiarem a nossa liberdade). Devemos lutar por ela a cada dia que passa, em lugar de deixarmos que nos sufoquem com a desinformação, o alarmismo, o boato e todos esses expedientes com que tentam dominar-nos pelo medo e roubar-nos o mais precioso dos nossos bens. É tempo de deixarmos de ser cobardes e de recusar este resvalamento para a mais estúpida das ditaduras – a ditadura dos mercados. Ao consentir que nos restrinjam a liberdade, estamos a renunciar à nossa condição de pessoas.
Por mim, tudo farei para impedir arbitrariedades como a que narrei no texto de ontem. Hoje mesmo fiz fotografias numa estação do Metro do Porto, neste caso a do Bolhão. Fi-lo depois de consultar exaustivamente toda a legislação e regulamentos aplicáveis e, antes de entrar na estação, verifiquei que não existe qualquer dístico relativo à proibição de fotografar: concluí que a proibição é completamente arbitrária. Ia determinado a reagir se me tentassem impedir de fotografar: se me tivessem apreendido a câmara ou o cartão de memória, teria imediatamente denunciado essa pessoa por roubo. Felizmente, nada aconteceu – excepto algumas fotografias que posso exibir, com algum orgulho, no meu Flickr. Se algo tivesse acontecido, teria reagido por todos os meios lícitos de defesa dos meus direitos, mas nada sucedeu. Ainda bem. Senti que, afinal de contas, ainda vai havendo alguma liberdade nesta cidade claustrofóbica que, no dia 25 de Abril, vai homenagear um dos grandes corruptores do nosso país e se deixa devassar pela vigilância das câmaras CCTV na Ribeira.
Como seria se todos, e cada um de nós, tivessem consciência dos seus direitos e agissem em conformidade? Este país seria um lugar extraordinário para se viver se nós, o colectivo a que chamamos povo, agíssemos como um colectivo consciente e informado, em lugar de permitirmos a arbitrariedade, a prepotência, a repressão sem lei e esta constante subtracção dos nossos direitos.  Que exemplo daríamos ao mundo! Em lugar disso, permitimo-nos ser governados por gente que serve aqueles que querem esbulhar-nos dos nossos direitos, gente que se comporta como mordomos desses ditadores sem rosto que nos tentam dominar, que são os que controlam essa entidade amorfa, acéfala mas poderosa a que chamam os mercados. A propósito da agressão aos fotojornalistas que referi acima, Bruno Nogueira disse há algumas semanas, no seu espaço da TSF, que os polícias são como os cães: se os donos são mansos, eles também o são; se os donos são agressivos, eles mordem e tornam-se ferozes. Estava, com o seu humor (ainda que este seja por vezes falível), a denunciar uma verdade que entra pelos olhos dentro de quem pensa um pouco. E a alegoria é extensível aos seguranças privados, como os que vigiam as estações do metro do Porto.
Desculpem este desabafo, que possivelmente faria mais sentido num blogue político que num de fotografia, mas há coisas que são bem mais importantes que a focagem automática e o equilíbrio dos brancos. Ninguém que tenha um pouco de raciocínio se pode demitir de lutar por uma vida e um país livres. Nem mesmo os fotógrafos amadores, ou os pretendentes a esse estatuto.
M. V. M.
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4 thoughts on “Liberdade, autoridade e arbitrariedade”

  1. Não posso deixar de concordar com algumas partes do seu texto, mas também não posso concordar com outras.É certo que após os atentados de 11 de Setembro de 2001, o histerismo coletivo tomou posse dos Governos e população à escala mundial e o medo instalou-se nas nossas vidas, mas há que ter também cuidado com a nossa "Liberdade" e até onde podemos ir. Se me dizem que é proibido fotografar num determinado local ou que tenho de pedir autorização para o fazer, só tenho de respeitar e aceitar. Que direito tenho eu de chegar a um local onde circulam todos os dias milhares de pessoas e começar a fotografar quando isso não é permitido? E porque razão tenho de reagir como uma criança quando não me deixam fazer o que quero e "bato no peito" para mostrar que tenho certos "direitos"? Acredito que o problema esteja dos dois lados e é preciso encontrar um equilíbrio.

  2. Nuno Ferreira, tenho pena que se tenha permitido escrever isto: «E porque razão tenho de reagir como uma criança quando não me deixam fazer o que quero e "bato no peito" para mostrar que tenho certos "direitos"?».Infelizmente, isto demonstra que, além de não ter compreendido o meu ponto de vista, não está disposto a lutar pelos seus direitos e pela sua liberdade, o que talvez (espero que não, sinceramente) demonstre que partilha características comuns à maioria dos portugueses: défice de coesão social e de consciência cívica, e passividade perante as injustiças e arbitrariedades.Não percebi se a sua alusão ao comportamento infantil é uma apreciação da minha atitude. Espero que não, porque se fosse, teria de dizer-lhe que não lhe fica bem e que ultrapassou os limites da decência e da boa educação. Espero ter interpretado mal as suas palavras.

  3. Manuel,Talvez me tinha explicado mal, mas não me estava a referir a si, pois sei que tem imenso cuidado e certifica-se de que não está a transgredir qualquer regra, tal como mencionou no seu texto. Sei que é uma pessoa cuidadosa e ponderada e peço desculpa se o meu comentário o ofendeu de alguma forma. Falo da generalidade das pessoas que pensam que podem "quebrar" ou "contornar" as leis escondendo-se atrás de direitos por vezes considerados duvidosos. O "Eu posso porque…" e o clássico "Eu tenho direito a…" são denominadores comuns na Sociedade Portuguesa. Era sobre isso que me referia quando escrevi "E porque razão tenho de reagir como uma criança quando não me deixam fazer o que quero e "bato no peito" para mostrar que tenho certos "direitos"?". O mundo da fotografia é assolado por fotógrafos ávidos de quebrar as regras para conseguir "aquela" fotografia. Conheço pessoalmente um dos fotojornalistas que foi agredido na manifestação e sei o que é arriscar para se conseguir imagens que poderão fazer a primeira página dos jornais.Meu caro, se há alguém que cumpre os seus deveres cívicos, luta pela justiça social e enfrenta o seu dia a dia com humildade, essa pessoa sou eu, e a prova disso está no meu comentário anterior. Vivo e observo injustiças todos os dias, fui alvo de algumas e lutei sempre pelo que considero certo, mas sem infringir as regras.

  4. Nuno, fico muito contente por as suas palavras não terem o sentido que, talvez um pouco desastradamente, lhes dei. É a minha vez de pedir desculpa. De facto, há pessoas com o comportamento que refere, mas não é para essas que escrevo. Aliás, detestaria que os meus argumentos fossem utilizados por essa gente para justificar e tentar legitimar a sua ânsia de fotografar a qualquer custo.Como vê, fez-me aperceber de um perigo que não tive presente quando escrevi: as interpretações tortuosas. Cumprimentos,M.

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