A importância da abertura na escolha das lentes

Voigtländer Nokton 25 mm f/0.95, uma das lentes mais rápidas do mundo

Há um fenómeno surpreendente na fotografia: as pessoas, no geral, interessam-se mais pelos corpos do que pelas lentes. São poucas as que não pensam nas objectivas como meros acessórios, e o critério de escolha de lentes empregue pela generalidade dos compradores é a amplitude de distâncias focais de um zoom. Há, até, possuidores de câmaras para quem o conceito de prime – lente de distância focal fixa – é completamente estranho, não concebendo outro tipo de lentes que não sejam zooms. Claro que este desconhecimento sobre a importância das lentes é lamentável, e estes entusiastas podem dar por si mudando de marca, excitados pelo número de megapixéis anunciados pelo fabricante X para a sua nova câmara, só para descobrir que as lentes que usava não podem ser montadas na câmara nova. (Aliás, há lentes do mesmo fabricante que não podem ser montadas em certos corpos dessa mesma marca: as Canon EF-S não podem ser montadas em câmaras com sensor full frame.)

Alguns entusiastas, por seu turno, medem as lentes como as pessoas que referi no parágrafo anterior avaliam as câmaras: pelos números. Procuram, sobretudo, lentes rápidas, i. e. com aberturas amplas (a que correspondem números f/ diminutos: 1.4, 1.8, 2). Isto levanta uma questão: serão as aberturas amplas tão importantes que determinem a escolha de uma lente em função do valor anunciado?

Um pouco de história. O apetite por lentes rápidas não é, ao contrário da voracidade por ISOs astronómicos e pelos megapixéis, um fenómeno recente. Houve tempos em que as lentes rápidas eram uma necessidade, porque os corpos não permitiam tempos de exposição curtos. A Minolta 7s a que aludi no texto de ontem só vai até 1/500, e a Olympus OM-1 não mais que 1/1000. Como a abertura e o tempo de exposição funcionam entre si numa relação de reciprocidade, isto significava que as aberturas tinham forçosamente de ser amplas para compensar a limitação dos tempos de exposição relativamente longos (que, nomeadamente, impedia a obtenção de bons congelamentos).

Isto não significa que a necessidade de aberturas largas tenha perdido a sua razão de ser quando as câmaras evoluíram para 1/4000 e 1/8000. Aquele continua a ser um requisito importante das lentes. Permite diminuir a profundidade de campo, o que é importante quando se pretende isolar um motivo, e fotografar sem auxílio do flash ou de valores ISO altos sob luz escassa. Todavia, deve dizer-se que a abertura não é tudo, nem é decerto a única determinante na qualidade de uma lente. A lente é composta por grupos ópticos, estando sujeita a aberrações e distorções que serão tanto piores quanto mais se poupar na quantidade e qualidade do vidro empregue. Distorções sob a forma centrípeta ou centrífuga – conforme se trate, respectivamente, de grandes-angulares ou teleobjectivas –, aberrações cromáticas, coma e astigmatismo, bem como tendência para ser influenciada por halos ou reflexos internos – estes são alguns dos problemas das lentes económicas.

Por outro lado, fotografar com as goelas da lente completamente abertas nem sempre produz os melhores resultados. Há, no geral, uma tendência para a imagem perder resolução do centro para as bordas, e algumas lentes produzem imagens planas, sem contraste e com perdas evidentes de nitidez quando usadas na abertura máxima.

O melhor, antes de comprar uma lente, é o adquirente informar-se em websites imparciais. Há dois que recomendo pelo rigor dos testes: o Lenstip e o DxOMark. Mas podem encontrar mais testes nos sites do costume (DPReview, Photography Blog, etc.).

Dito isto, a verdade é que quem estiver habituado a fotografar com lentes de abertura máxima f3.5 – que são as mais comuns – vai redescobrir o prazer de fotografar quando tiver uma lente rápida. Deste modo, não é por exagero, nem por ser o resultado de uma lavagem cerebral por marketing enganoso, que muitos procuram lentes rápidas. Com a reserva, porém, de que a rapidez não é o único factor que determina a qualidade da lente, e que uma lente não é forçosamente má por não ter uma abertura espectacular.

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3 comments

  1. Curiosamente, no caso da Canon, quase não há lentes fixas rápidas a preços razoáveis… nem EF, nem EF-S, e parece-me que em ambos os casos, e quase de certeza no caso das EF-S é claramente de propósito.

      1. o quase era mesmo isso, que eu tenho uma aqui no armário :))) casca de plastico mas vidro de boa qualidade – só que numa EF-s fica com 80mm…

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